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Memórias Póstumas de um Autista Adulto

Se a sombra incomoda, é porque falta luz

memórias póstumas de um autista adulto

Memória #002
Silhueta de uma figura adulta sentada sobre uma rocha, sob uma árvore, observando o sol nascer sobre montanhas e vales cobertos de névoa.

Mais uma viagem feita na escuridão da madrugada, às profundezas, e indo além da viagem anterior. O caminho muda, a pressa em ir além vai diminuindo ao perceber que o importante não é o destino, mas o trajeto. O importante é como você chega, e não apenas chegar.

E logo ao chegar ao ponto mais distante que a vista não alcançava da última vez, cenas, percepções e verdades que mostram o quanto se é cego no dia a dia, ou melhor, o quanto fingimos não ver e acabamos tentando nos convencer de que realmente não estamos vendo... mas somos, sim, capazes de ver.

Como a ioga nos ensina, tentar nos forçar a algo é autopunição. Devemos respeitar nossos limites, até mesmo de entendimento e autocompreensão. E, neste ponto, percebemos o quanto nos autopunimos, o quanto damos mais crédito aos que estão à nossa volta, mesmo com suas mentiras e falsidades, do que a nós mesmos, que não somos capazes de mentir eternamente para nós mesmos.

De dentro de nós enxergamos as verdades e, externamente, nos outros, enxergamos — e podemos duvidar — de suas mentiras. Mesmo assim, costumamos preferir a automutilação, a autocrítica, a descrença na própria verdade e no próprio potencial.

O ensinamento é procurar não cair no jogo de “eu sou mau x os outros são bons” ou vice-versa. Não é essa a questão. A questão é que, de dentro de mim, tenho certeza das verdades que estou enxergando, mesmo as piores. Mas, externamente, nos outros, vejo apenas suas narrativas, e elas não estão de acordo com seus atos.

Enxergo suas movimentações, enxergo claramente seus atos falhos, seus gaguejos, o quanto evitam olhar nos olhos enquanto falam. Tenho um sério defeito/qualidade, que é focar detalhes que passam despercebidos... Costumo dizer que é no detalhe que tudo se perde... para não citar o ditado popular de que é nos detalhes que mora o demônio.

Sou capaz de lembrar uma palavra dita há muito tempo, que para mim foi importante, e compará-la, anos depois, com algo dito agora. Não reajo. Guardo. Penso. Rumino. Tento digerir. Ou engulo, ou regurgito.

Mas já estou velho demais para engolir e fingir que as histórias, os discursos, não batem.

A percepção autista da própria limitação, quando plenamente diagnosticada e ciente de suas limitações de percepção social, quando associada a uma inteligência compensatória acima da média, faz com que se procurem outros pontos de referência, confiáveis, de que o verdadeiro contexto que está sendo analisado representa de forma mais concreta o que está acontecendo do que os discursos.

E dói muito ao descobrir, depois de muito analisar, que a desconfiança tinha fundamento.

O aprendizado desta viagem, desta vez, foi a autocompreensão dos próprios limites, um respeito maior àquele único que certamente não está mentindo para você: o si mesmo, seu Self.

Não me cabe julgar o real motivo do teatro montado ao meu redor, no mundo aqui em cima. Mais importante, neste momento, é saber que há um espaço onde se pode encontrar a verdade, ou pelo menos chegar próximo dela.

Continuar no teatro não é uma opção.

Ao analisar a dor das mentiras vividas, surge a necessidade do Deus Ex-Machina, de uma solução rápida, definitiva, de um recomeço do zero. Mas já não é mais possível, tal nível de compartilhamento de narrativas que há ao redor, como na tentativa de se criar um pano de fundo factível para a peça teatral em que vários outros atores precisam interagir com o seu personagem, ou melhor, o personagem que criaram para que você represente.

Derrubar este pano de fundo aparentemente não trará, do dia para a noite, uma relação verdadeira, honesta, permeada de sentimentos não escondidos, e sim compartilhados.

Não.

Pois as pessoas não necessariamente desejam a mentira, mas precisam dela. Como disse na última viagem, elas não suportariam olhar para dentro de si mesmas, então criam a peça e aceitam o personagem dado, fingindo que é ele que realmente está ali.

O leitor talvez um dia saiba a dor que é descobrir que se está num grande teatro e que o personagem que lhe deram é apenas um que se encaixa na narrativa geral da história da peça apresentada...

Percebo que alguns acreditam que, impondo o personagem, talvez ele se torne real na pessoa, mas lamento dizer que não. A essência dela continua lá dentro, enquanto ela estiver viva e talvez até depois disso.

Mas ela definha dia a dia enquanto a pessoa estiver perdida entre ser quem realmente é e o personagem que criaram para ela na grande mentira que está à sua volta.

Talvez, para alguns, lendo estas viagens, dirão que parece que estou falando da tal Matrix. Mas não.

Você pode ser livre, dentro de si, deste teatro criado ao seu redor.

A maior luta, e que não tenho resposta se conseguirei alcançar ou não, é se é possível simplesmente sair desta farsa, não como punição aos demais “atores” e suas narrativas falsas, mas como um ato real de liberdade e uma demonstração de que mentiras impostas não alimentam, envenenam.

Não, não foi uma viagem ruim.

Foi aquele tipo de viagem em que, ao ir bem longe, já cansado, você para para descansar, bebe água e reflete um pouco sobre como serão os próximos passos, apesar de ter uma parte de si dizendo para continuar mesmo no sacrifício...

Não... já chega de autopunição disfarçada de sacrifícios.

Sacrifício pelo quê? Por quem?

Ser sincero consigo mesmo é o primeiro sinal de respeito a si mesmo que se pode dar. Tanto ao não criar ilusões do que há à frente, como também ao não se submeter ao teatro à sua volta como se não houvesse outra escolha.

Então qual é a outra escolha, você me perguntaria, correto?

Não tenho certeza ainda.

Mas me recuso a acreditar que não exista.

Acredito que não me submeter ao teatro à minha volta já é uma escolha, já é um ato “absurdo” de Sísifo, como Camus disse.

Vamos continuar a rolar a pedra.

Talvez surja algum Deus Ex-Machina que veja que a pena já foi suficiente.

Talvez.

Talvez os demais personagens percebam que já mentiram demais.

Talvez percebam que a mentira nunca alimenta, envenena.

Aos poucos.

E que o verdadeiro amor das pessoas passa necessariamente pela sinceridade.

Mentir é trair.

Omitir a verdade é negar ao outro o único presente verdadeiro por fazer parte de sua vida.

Mas não julgo os valores de cada um.

A verdade, o verdadeiro, os sentimentos puros, não são prioridade na vida da maioria das pessoas.

E isso não é exclusividade do meu entorno.

Sei que nunca seremos capazes de realmente nos colocarmos no lugar do outro, sentir o que sentem e entender por que agem como agem. Sei disso.

Mas, se todos tivessem noção desta impossibilidade e não tentassem viver num teatro de emoções, sentimentos e ações mascaradas, impondo aos outros um “conto” para tornar suas próprias dores ocultas em vez de se abrir e aceitar o outro como ele realmente é, teríamos um mundo melhor, menos desgastante, menos angustiante, sem tanto rancor que surge com intensidade quando você descobre que passou anos sendo enganado.

Não vale a pena se revoltar.

Não vale a pena tentar discutir, “jogar na cara”.

Crie um espaço interior para onde você possa viajar numa noite escura, sentar, observar, refletir, se perdoar, analisar o que se pode fazer para o futuro e, depois, voltar para o teatro, como eu ainda estou fazendo.

Digo “ainda” pois minha esperança reside na capacidade de a vida nos surpreender.

Não pela “vingança”, não pelo “fogo trocado”.

Mas pela justiça em que ainda acredito.

O ódio não constrói, assim como a mentira também não.

A sinceridade e o autorrespeito, o amor próprio, a admiração pela própria história de sobrevivência que te fez chegar até aqui, isso vale a pena nutrir e trazer em todas estas viagens, para curar a dor que os outros lhe provocam com suas falsidades e mentiras.

A luz ilumina melhor quando a escuridão está no seu ponto mais sombrio.

E é esse jogo de Yin e Yang que faz a vida se movimentar.

Não se apegue aos maus sentimentos.

No fim, cada um colhe e colherá o que plantou.

Plante coisas boas, e não importa se em breve você vai deixar para que outros colham.

Você fez sua parte.

Se vão lembrar de você, não importa.

O importante é que você não esqueça de si mesmo.

Até a próxima viagem, se houver.

— O Resiliente

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