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Autismo em adultos · 23 min de leitura

Quando a deficiência vira piada: o que o “nove dedos” revela sobre o capacitismo

O episódio envolvendo Lula e Flávio Bolsonaro reacende uma discussão que vai muito além da política: por que uma característica da deficiência ainda pode ser usada como instrumento de humilhação — e quais são as consequências disso para milhões de pessoas?

Por Resiliente · 24 de outubro de 2026

Mão humana sem o dedo mínimo diante de uma paisagem abstrata, em uma ilustração editorial sobre deficiência e capacitismo.

Há uma diferença importante entre mencionar uma deficiência e utilizá-la para diminuir alguém.

Uma pessoa pode, naturalmente, ser descrita como alguém que perdeu um membro, utiliza cadeira de rodas, é surda, cega, tem uma amputação, possui uma deficiência intelectual ou é autista. A deficiência faz parte da realidade daquela pessoa e, em determinados contextos, falar sobre ela é perfeitamente legítimo. O problema começa quando essa característica deixa de ser uma informação sobre a pessoa e passa a ser transformada em um recurso para ridicularizá-la, desqualificá-la ou colocá-la em uma posição de inferioridade.

O episódio que voltou a colocar essa questão no centro do debate público brasileiro aconteceu no debate presidencial transmitido pela TV Globo em 23 de outubro de 2026. Durante uma discussão política, Flávio Bolsonaro utilizou a expressão “nove dedos” para se referir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho quando tinha 17 anos. Lula reagiu imediatamente e exigiu um pedido de desculpas, que foi feito ainda durante o debate. A expressão, entretanto, continuou circulando nas redes sociais e foi reproduzida também pelo perfil oficial do Partido Liberal.

O objetivo deste texto não é discutir quem tem razão no debate político, nem defender ou atacar Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer partido. Políticos podem e devem ser criticados. Governos podem ser responsabilizados. Decisões públicas podem ser questionadas de maneira dura. Democracia pressupõe conflito de ideias.

O que merece ser discutido é outra coisa: por que uma característica física decorrente de uma deficiência precisa ser transformada em insulto?

Essa pergunta interessa a todos nós, porque aquilo que parece ser apenas uma provocação dirigida a uma pessoa famosa também comunica alguma coisa para milhões de pessoas que vivem diariamente com alguma deficiência.

O problema não é ter nove dedos. O problema é transformar isso em motivo de humilhação

Se alguém disser, de maneira factual, que determinada pessoa perdeu um dedo, não existe necessariamente qualquer problema nessa afirmação. A descrição de uma característica corporal não é, por si só, capacitista.

O contexto muda tudo.

Quando a característica é utilizada para sugerir inferioridade, incapacidade, deformidade, vergonha ou para produzir uma reação de escárnio, entramos em outro território. A pessoa deixa de ser tratada como um indivíduo que possui uma característica e passa a ser reduzida àquela característica.

É exatamente essa lógica que o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania descreve ao tratar do capacitismo: a ideia de que o valor ou a capacidade de uma pessoa estariam determinados por suas limitações físicas, sensoriais, intelectuais ou mentais. O órgão também destaca que o capacitismo pode aparecer não apenas em barreiras arquitetônicas ou institucionais, mas em atitudes, preconceitos e estereótipos que marginalizam, infantilizam ou diminuem pessoas com deficiência.

Existe, portanto, uma pergunta simples que ajuda a identificar o problema:

a característica da deficiência está sendo mencionada para informar ou para humilhar?

No primeiro caso, estamos diante de uma descrição.

No segundo, podemos estar diante de capacitismo.

“Mas é só uma piada”

Essa talvez seja uma das formas mais comuns de defesa quando alguém é confrontado por uma fala capacitista.

“Foi só uma piada.”

“Não foi para tanto.”

“Ele é político, tem que aguentar.”

“Todo mundo faz brincadeira.”

“Não pode falar mais nada.”

O problema dessa lógica é que ela coloca toda a responsabilidade sobre a pessoa que recebeu a agressão: se ela se sentiu humilhada, seria porque não sabe brincar; se reagiu, seria porque é sensível demais; se denunciou, estaria tentando censurar a liberdade de expressão.

Mas a questão não é impedir o humor.

Pessoas com deficiência também fazem piadas sobre suas próprias experiências, brincam com suas características e utilizam o humor como forma de expressão, inclusive como mecanismo de resistência. O ponto fundamental é quem controla a narrativa e qual é a função daquele humor.

Existe uma diferença enorme entre uma pessoa brincar com uma característica própria e outra pessoa utilizar essa característica para tentar colocá-la abaixo de si.

Essa diferença é frequentemente ignorada.

E, quando ignorada, o humor pode se transformar em uma forma socialmente aceita de violência.

O capacitismo não começa na agressão física

Durante muito tempo, quando se falava em discriminação contra pessoas com deficiência, a imagem mais evidente era a de uma agressão direta ou de uma proibição explícita.

Hoje sabemos que o fenômeno é muito mais amplo.

A Lei Brasileira de Inclusão define como barreiras atitudinais as atitudes ou comportamentos que prejudiquem a participação social da pessoa com deficiência em igualdade de condições e oportunidades. A própria legislação reconhece, portanto, que uma barreira pode existir dentro das relações humanas, e não apenas em uma escada sem rampa, em um prédio sem elevador ou em um site inacessível.

Uma piada pode ser uma barreira.

Um apelido pode ser uma barreira.

A infantilização pode ser uma barreira.

A presunção de incompetência pode ser uma barreira.

A ideia de que uma pessoa com deficiência deveria ser grata por receber oportunidades pode ser uma barreira.

E a utilização pública de uma característica da deficiência como instrumento de humilhação também pode reforçar essa mesma estrutura.

O problema está justamente na repetição.

Uma única piada pode parecer insignificante para quem a conta. Mas milhões de manifestações semelhantes produzem uma cultura na qual determinadas pessoas aprendem que seus corpos podem ser utilizados como objeto de escárnio.

É assim que o preconceito se normaliza.

O que acontece quando uma pessoa ouve isso durante toda a vida?

Aqui entramos em uma dimensão que frequentemente desaparece das discussões sobre capacitismo: a saúde mental.

Uma pessoa com deficiência não vive apenas com o impedimento relacionado à sua condição. Ela vive também dentro de uma sociedade que pode responder a esse impedimento com barreiras, desconfiança, exclusão, infantilização, violência ou ridicularização.

A Organização Mundial da Saúde afirma que pessoas com deficiência apresentam maior risco de diversos problemas de saúde e que as desigualdades de saúde são produzidas, entre outros fatores, pelo estigma, pela discriminação, pela pobreza, pela exclusão educacional e profissional e pelas barreiras encontradas nos sistemas de saúde. A OMS estima que pessoas com deficiência tenham aproximadamente o dobro do risco de desenvolver condições como depressão em comparação com pessoas sem deficiência.

Isso não significa que uma piada isolada “cause depressão”. Seria uma conclusão que a evidência não permite.

O problema é outro: a exposição repetida à discriminação faz parte do ambiente social em que a saúde mental é construída.

A pessoa pode aprender que será julgada antes mesmo de falar.

Pode evitar determinados ambientes.

Pode esconder sua deficiência.

Pode evitar pedir ajuda.

Pode desenvolver uma expectativa permanente de rejeição.

Pode interpretar cada nova interação social a partir de experiências anteriores de humilhação.

Pode começar a sentir vergonha de características que nunca deveriam ter sido motivo de vergonha.

E, em determinadas situações, pode internalizar o próprio preconceito que recebeu do mundo.

A OMS descreve justamente esse fenômeno ao abordar o estigma internalizado: a repetição de atitudes negativas da sociedade pode levar a pessoa a incorporar essas crenças e passar a enxergar a si mesma através delas. O relatório global sobre equidade em saúde das pessoas com deficiência também relaciona estigma e discriminação a prejuízos na saúde física e mental e a atrasos ou dificuldades na busca por cuidados.

A violência, portanto, não precisa terminar quando termina a piada.

Às vezes ela continua dentro da pessoa.

O capacitismo produz uma mensagem muito maior do que o insulto

Imagine uma criança com uma deficiência física assistindo a um adulto famoso ser ridicularizado por possuir uma característica corporal semelhante à sua.

Imagine um adolescente que já ouviu colegas fazerem piadas sobre seu corpo.

Imagine uma pessoa que passou anos escondendo uma deficiência invisível.

Imagine um adulto que finalmente conseguiu ocupar um espaço profissional depois de enfrentar inúmeras barreiras.

O que essa pessoa pode ouvir quando uma característica de deficiência vira motivo de escárnio em rede nacional?

A mensagem não é apenas “estamos zombando de um político”.

A mensagem pode ser percebida como:

“Essa característica pode ser usada para diminuir você.”

“Seu corpo pode ser transformado em motivo de vergonha.”

“Se alguém quiser atacá-lo, sua deficiência pode ser utilizada contra você.”

“Para ser respeitado, talvez você precise esconder aquilo que o diferencia.”

É justamente por isso que a representação pública importa.

Um estudo publicado em 2025 sobre representação da deficiência observou que pessoas com deficiência frequentemente são percebidas, de maneira estereotipada, como incapazes de trabalhar, contribuir para a sociedade ou estabelecer relacionamentos, e investigou a representação como uma possível estratégia para reduzir esses estereótipos.

Quando pessoas com deficiência aparecem na política, na ciência, na universidade, no esporte, nas artes, no serviço público ou na imprensa, isso ajuda a deslocar a imagem social da deficiência: de objeto de caridade para sujeito de direitos.

Quando aparecem apenas como motivo de piada, ocorre o movimento contrário.

O Brasil não chegou até aqui por acaso

É importante lembrar que os direitos das pessoas com deficiência não foram simplesmente concedidos espontaneamente pelo Estado ou pela sociedade.

Foram conquistados por movimentos sociais, organizações e pessoas com deficiência que lutaram durante décadas para deixar de ser tratadas como objetos de assistência e passar a ser reconhecidas como sujeitos de direitos.

A Constituição de 1988 representou um marco importante ao incorporar as pessoas com deficiência ao campo dos direitos de cidadania. Em 1989, a Lei nº 7.853 estabeleceu normas voltadas ao pleno exercício dos direitos individuais e sociais e ao afastamento das discriminações e preconceitos.

Em 1991, veio outro marco decisivo: o artigo 93 da Lei nº 8.213 instituiu a chamada Lei de Cotas, obrigando empresas com 100 ou mais empregados a reservar de 2% a 5% dos cargos para pessoas com deficiência ou trabalhadores reabilitados. A política permanece como um dos principais instrumentos brasileiros de inclusão no mercado de trabalho.

Em 2000, o Brasil aprovou leis fundamentais sobre acessibilidade e atendimento prioritário.

Em 2008, o país ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU com o procedimento constitucional previsto no §3º do art. 5º da Constituição. A Convenção tornou-se, assim, um marco jurídico de enorme importância e ajudou a consolidar uma mudança de paradigma: a pessoa com deficiência deixou de ser vista primordialmente como objeto de proteção e passou a ser reconhecida como sujeito de direitos, autonomia e participação.

Em 2015, veio a Lei Brasileira de Inclusão.

A LBI estabeleceu que a pessoa com deficiência é aquela que possui impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial que, em interação com barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições. Também incorporou de maneira ampla conceitos como acessibilidade, barreiras atitudinais, adaptações razoáveis, autonomia e participação política.

Esse percurso jurídico representa uma transformação profunda.

Mas a existência da lei não significa que o preconceito desapareceu.

Da caridade à cidadania

Talvez uma das maiores conquistas das últimas décadas tenha sido justamente a mudança de perspectiva.

A pessoa com deficiência não precisa ser vista como alguém que deve ser “consertado” para poder participar da sociedade.

Ela não precisa ser transformada em exemplo de superação para merecer respeito.

Não precisa ser tratada como criança.

Não precisa ser considerada extraordinária simplesmente porque trabalha, estuda, dirige, constitui família, ocupa cargo público ou pratica esportes.

E também não precisa esconder sua deficiência para ser tratada como uma pessoa completa.

O Ministério dos Direitos Humanos chama atenção inclusive para o problema de transformar atividades banais realizadas por pessoas com deficiência em atos de “superação heroica”. A lógica parece positiva, mas pode reforçar a ideia de que aquilo que para uma pessoa sem deficiência é cotidiano seria extraordinário quando realizado por uma pessoa com deficiência.

Existe uma forma mais simples de pensar nisso:

pessoas com deficiência não precisam de heroificação. Precisam de igualdade.

E igualdade não significa tratar todos exatamente da mesma maneira quando as condições de partida são diferentes. Significa remover as barreiras que impedem a participação em igualdade de condições.

E quando a deficiência é invisível?

A discussão também é especialmente importante para pessoas cuja deficiência não é imediatamente perceptível.

O autismo é um dos exemplos mais evidentes.

Uma pessoa autista pode não utilizar cadeira de rodas, não possuir uma amputação ou qualquer característica física evidente. Ainda assim, pode enfrentar barreiras relacionadas à comunicação, à sobrecarga sensorial, à previsibilidade, à interação social, às funções executivas e à necessidade de adaptações.

A ausência de uma marca física não significa ausência de deficiência.

E justamente por isso pessoas com deficiências invisíveis frequentemente enfrentam outro tipo de capacitismo: a desconfiança.

“Mas você não parece autista.”

“Você fala tão bem.”

“Você trabalha normalmente.”

“Você tem uma vida normal.”

“Você não precisa disso.”

A lógica é perigosa porque transforma a capacidade demonstrada pela pessoa em argumento contra o reconhecimento das suas próprias necessidades.

A legislação brasileira não adota esse raciocínio. A LBI não define deficiência pela aparência. Ela considera impedimentos de longo prazo em interação com barreiras e estabelece, quando necessária, uma avaliação biopsicossocial que leva em conta fatores corporais, socioambientais, psicológicos e pessoais, limitações de atividade e restrições de participação.

Isso é particularmente importante para o autismo adulto.

Uma pessoa pode ter aprendido, durante décadas, estratégias para funcionar em um mundo que não foi projetado para ela. Isso não significa que as barreiras tenham desaparecido.

O capacitismo também atinge quem “parece forte”

Existe ainda uma contradição particularmente cruel.

Quanto mais uma pessoa com deficiência consegue funcionar socialmente, mais algumas pessoas passam a questionar se ela realmente possui uma deficiência.

É como se competência anulasse necessidade.

Como se trabalhar significasse não precisar de adaptação.

Como se estudar significasse não precisar de acessibilidade.

Como se falar bem significasse não possuir dificuldades.

Como se ocupar um cargo de responsabilidade significasse que qualquer limitação deixou de existir.

Essa lógica cria uma espécie de armadilha: se a pessoa apresenta dificuldades, pode ser considerada incapaz; se demonstra competência, sua deficiência passa a ser questionada.

É uma situação particularmente desgastante porque obriga a pessoa a provar continuamente aquilo que deveria ser analisado com seriedade e individualização.

A lei brasileira foi mais longe do que o senso comum

A LBI não trata apenas de acessibilidade física.

Ela garante à pessoa com deficiência o exercício de sua capacidade legal em igualdade de condições com as demais pessoas, assegura direitos políticos e determina que a pessoa com deficiência tenha direito de votar e ser votada. A legislação também reconhece as barreiras atitudinais como obstáculos à participação social.

Isso é importante porque mostra a dimensão da transformação jurídica.

O objetivo não é simplesmente permitir que uma pessoa com deficiência entre em um prédio.

É permitir que ela participe da sociedade como cidadã.

Que possa estudar.

Trabalhar.

Votar.

Ser votada.

Formar uma família.

Tomar decisões.

Circular.

Produzir conhecimento.

Ocupar espaços de poder.

Criticar governos.

Ser criticada.

Discordar.

Errar.

Acertar.

E, principalmente, ser tratada como pessoa.

Capacitismo não significa proibir críticas

É preciso estabelecer essa distinção com clareza, especialmente em um ambiente político.

Dizer que determinada política pública é ruim não é capacitismo.

Questionar a competência de um governante não é capacitismo.

Criticar uma decisão de governo não é capacitismo.

Discordar de um candidato não é capacitismo.

Até mesmo fazer referência a uma característica física pode ser legítimo quando ela é relevante para a informação que está sendo transmitida.

O problema aparece quando a deficiência é utilizada como argumento para inferiorizar a pessoa.

Em outras palavras, critique aquilo que ela faz; não transforme aquilo que ela é em arma de humilhação.

Esse princípio vale para políticos, servidores públicos, professores, colegas de trabalho, familiares, celebridades e desconhecidos.

Vale para todos.

E a legislação? Quando uma piada pode se transformar em discriminação?

A Lei Brasileira de Inclusão vai além de recomendar boas maneiras.

O artigo 88 estabelece como crime praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência, com pena de reclusão de um a três anos e multa. Quando o crime é cometido por meio de comunicação social ou publicação de qualquer natureza, a pena prevista passa para dois a cinco anos e multa. A lei também prevê medidas relacionadas à retirada ou interdição de material discriminatório em determinadas circunstâncias.

Isso não significa que qualquer comentário desagradável sobre uma pessoa com deficiência automaticamente constitua o crime do artigo 88.

A caracterização jurídica depende das circunstâncias concretas, do conteúdo, do contexto, da intenção e dos efeitos juridicamente relevantes, entre outros elementos que precisam ser analisados pelas autoridades competentes.

Mas existe uma mensagem importante na própria existência dessa norma: o ordenamento jurídico brasileiro não considera a discriminação por deficiência uma simples questão de falta de educação.

Ela pode ultrapassar o campo da grosseria e entrar no campo da violação de direitos.

O que acontece nas redes sociais?

A internet tornou essa questão ainda mais complexa.

Uma agressão feita diante de algumas dezenas de pessoas pode permanecer limitada àquele ambiente. Uma publicação na internet pode ser reproduzida milhares ou milhões de vezes.

O insulto pode virar meme.

O meme pode virar tendência.

A tendência pode ser transformada em linguagem cotidiana.

E aquilo que começou como uma provocação política pode acabar sendo utilizado contra pessoas que não têm absolutamente nenhuma relação com o episódio original.

É assim que a cultura do deboche funciona.

Uma expressão se torna normal.

Depois vira apelido.

Depois vira piada.

Depois aparece no ambiente escolar.

Depois no trabalho.

Depois na família.

E, quando alguém reclama, escuta:

“Agora tudo é capacitismo.”

Não.

Nem tudo é capacitismo.

Mas o fato de algumas pessoas utilizarem o termo de maneira exagerada não torna o capacitismo inexistente.

Da mesma maneira que o uso indevido da palavra “racismo” não elimina o racismo, o uso inadequado da palavra “capacitismo” não elimina a discriminação contra pessoas com deficiência.

O caminho não é abandonar o conceito.

É aprender a utilizá-lo corretamente.

Como combater o capacitismo?

O combate começa muito antes de uma denúncia.

Começa pela linguagem, mas não termina nela.

A primeira medida é simples: não utilizar características da deficiência como insulto.

Não chamar uma pessoa de “cego” para dizer que ela não percebe algo.

Não usar “surdo” como sinônimo de alguém que não escuta argumentos.

Não utilizar deficiência intelectual como xingamento.

Não transformar autismo em sinônimo de falta de empatia, frieza ou incompetência.

Não transformar amputação, uso de prótese, cadeira de rodas ou qualquer outra característica corporal em motivo de humilhação.

Também é importante não reproduzir uma piada simplesmente porque ela viralizou.

O número de curtidas não transforma uma agressão em algo aceitável.

O alcance não elimina a responsabilidade.

E o fato de milhares de pessoas rirem não significa que ninguém esteja sendo atingido.

A segunda medida é ouvir as próprias pessoas com deficiência

Uma sociedade inclusiva não pode ser construída apenas por pessoas sem deficiência falando sobre deficiência.

Pessoas com deficiência precisam ocupar os espaços de decisão, produção de conhecimento, comunicação, política, educação, cultura e trabalho.

A própria Convenção da ONU consolidou essa perspectiva ao colocar participação e autonomia no centro dos direitos das pessoas com deficiência.

Não basta falar sobre elas.

É necessário falar com elas.

E, principalmente, permitir que elas próprias definam quais são as barreiras que enfrentam.

A terceira medida é parar de confundir igualdade com indiferença

Existe uma frase frequentemente utilizada para justificar comportamentos capacitistas:

“Eu trato todo mundo igual.”

Mas tratar todo mundo exatamente da mesma maneira pode significar ignorar diferenças que exigem acessibilidade.

Uma pessoa que necessita de legenda não precisa de “privilégio”.

Uma pessoa autista que precisa de determinada adaptação sensorial não está necessariamente recebendo tratamento especial.

Uma pessoa que utiliza cadeira de rodas não está recebendo vantagem porque existe uma rampa.

Acessibilidade não é privilégio.

É condição de participação.

A LBI trabalha justamente com essa lógica ao reconhecer adaptações razoáveis e acessibilidade como instrumentos para garantir igualdade de oportunidades.

A quarta medida é não exigir que a pessoa suporte tudo calada

Há uma expectativa social de que pessoas com deficiência sejam permanentemente pacientes, educadas, agradecidas e resilientes.

Isso também pode ser capacitista.

Uma pessoa com deficiência pode ficar irritada.

Pode denunciar.

Pode reclamar.

Pode responder.

Pode exigir respeito.

Pode não achar graça.

Pode dizer que uma determinada brincadeira ultrapassou o limite.

Não existe obrigação de sorrir diante da própria humilhação para provar que possui “bom humor”.

O que fazer quando o capacitismo acontece?

Quando a situação é concreta e causa prejuízo, é importante preservar evidências: mensagens, publicações, vídeos, e-mails, testemunhas, datas e contexto.

Em situações de discriminação, o Disque 100, da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, recebe denúncias gratuitamente, 24 horas por dia. O Ministério dos Direitos Humanos também informa canais digitais, inclusive WhatsApp e atendimento em Libras.

Dependendo da situação, também podem existir caminhos administrativos, trabalhistas ou judiciais, além da atuação da Defensoria Pública, do Ministério Público e de entidades representativas.

No ambiente de trabalho, situações reiteradas de humilhação, discriminação ou perseguição podem ainda assumir outras consequências jurídicas, dependendo das circunstâncias concretas.

O mais importante é não naturalizar.

Aquilo que se repete não deixa de ser violência porque se tornou comum.

A história ainda não terminou

Talvez seja esse o ponto mais importante.

Quando olhamos para a história dos direitos das pessoas com deficiência, percebemos algo que deveria produzir uma certa humildade em nossa sociedade.

Muita coisa que hoje parece óbvia um dia precisou ser conquistada.

Acessibilidade.

Direito ao trabalho.

Reserva de vagas.

Direito à educação.

Direito à participação política.

Direito à capacidade civil.

Direito à autonomia.

Direito à acessibilidade comunicacional.

Direito à igualdade.

Nada disso apareceu espontaneamente.

Foram necessárias décadas de organização social, mobilização política, produção acadêmica, atuação jurídica e resistência cotidiana.

O Brasil avançou muito.

Mas ainda não chegou ao fim desse processo.

O próprio Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência — Novo Viver sem Limite — estabelece entre suas diretrizes o enfrentamento do capacitismo, do preconceito e da violência, além do reconhecimento do protagonismo das pessoas com deficiência, da redução de barreiras e da promoção da igualdade de oportunidades.

Isso significa que o Estado brasileiro reconhece oficialmente algo que ainda precisa ser compreendido pela sociedade: não basta garantir direitos no papel quando atitudes e estruturas continuam produzindo exclusão.

Talvez a evolução esteja justamente em aprender a discordar sem desumanizar

Uma democracia madura precisa suportar conflitos.

Precisamos poder discordar profundamente.

Precisamos poder criticar presidentes, senadores, deputados, ministros, juízes, empresários, jornalistas, servidores, partidos e governos.

Precisamos poder fazer oposição.

Precisamos poder questionar.

Precisamos poder ser duros.

Mas existe uma diferença entre ser duro e ser cruel.

Existe uma diferença entre atacar uma ideia e atacar uma característica corporal.

Existe uma diferença entre demonstrar que um político está errado e tentar fazer o público rir de uma deficiência.

Essa diferença parece pequena quando observada dentro de uma disputa eleitoral.

Ela é enorme quando observada por alguém que passou a vida inteira sendo lembrado de que seu corpo, sua mente ou sua forma de funcionar estaria abaixo de um padrão considerado aceitável.

É por isso que a discussão sobre o “nove dedos” não deveria terminar com o pedido de desculpas feito no debate.

O episódio pode servir para uma reflexão maior.

Porque amanhã pode ser outra deficiência.

Outro corpo.

Outro diagnóstico.

Outra pessoa.

E, se continuarmos aceitando que a deficiência é uma boa arma para humilhar alguém, estaremos ensinando às próximas gerações que existem corpos que podem ser transformados em piada quando a discussão fica acalorada.

Não é esse o país que a legislação brasileira pretende construir.

Não é esse o sentido das conquistas obtidas pelas pessoas com deficiência.

E certamente não é esse o significado de inclusão.

O que realmente precisa desaparecer?

Talvez a resposta esteja justamente na inversão da pergunta.

Não precisamos construir uma sociedade em que pessoas com deficiência desapareçam da nossa visão.

Precisamos construir uma sociedade em que a deficiência deixe de ser utilizada para diminuir o valor de alguém.

O que precisa desaparecer não são as diferenças humanas.

São as barreiras.

A vergonha imposta.

A infantilização.

A exclusão.

A suspeita permanente sobre a capacidade.

O preconceito.

A violência.

E a ideia de que o corpo de outra pessoa pode ser utilizado como objeto de diversão coletiva.

Uma pessoa pode ter nove dedos.

Pode não enxergar.

Pode não ouvir.

Pode utilizar uma cadeira de rodas.

Pode ter uma deficiência intelectual.

Pode ser autista.

Pode possuir uma deficiência que ninguém percebe.

Nada disso diminui sua dignidade.

Nada disso diminui seu direito de participar da sociedade.

Nada disso transforma seu corpo em propriedade pública.

E, principalmente, nada disso deveria ser utilizado como argumento para dizer que ela vale menos.

A sociedade brasileira já percorreu um longo caminho para reconhecer as pessoas com deficiência como sujeitos de direitos.

Agora precisa aprender uma etapa talvez ainda mais difícil: tratá-las como sujeitos de igual dignidade também quando ninguém está olhando, quando a discussão fica agressiva, quando a piada parece fácil e quando a diferença parece uma oportunidade conveniente para humilhar alguém.

Porque inclusão não é apenas colocar uma pessoa dentro da sala.

É permitir que ela permaneça ali sem precisar esconder quem é.

E respeito não é deixar de criticar.

É saber que, mesmo quando discordamos profundamente de alguém, a deficiência daquela pessoa continua não sendo um argumento.

Nota editorial

Este artigo utiliza o episódio ocorrido no debate presidencial de 23 de outubro de 2026 como ponto de partida para discutir capacitismo, discriminação e os efeitos sociais e psicológicos do estigma contra pessoas com deficiência. A análise não pretende fazer julgamento jurídico definitivo sobre a conduta de qualquer pessoa envolvida no episódio. A caracterização de eventual crime ou ilícito depende da análise concreta pelas autoridades competentes.

O termo atualmente utilizado pela legislação brasileira é “pessoa com deficiência”. Expressões como “portador de deficiência”, “necessidades especiais” ou simplesmente “deficiente” são evitadas neste texto por não corresponderem à terminologia adotada pela legislação e pelas políticas públicas contemporâneas.

Fontes e referências

- UOL — “Flávio chama Lula de 9 dedos e petista exige desculpas”, 24/10/2026.

- Agência Brasil — debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, 24/10/2026.

- Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania — Capacitismo: o que é, como identificar e como combater a discriminação no dia a dia.

- Lei Brasileira de Inclusão — Lei nº 13.146/2015, especialmente arts. 2º, 3º, 4º, 76, 84, 85 e 88.

- Lei nº 7.853/1989, marco da proteção dos direitos das pessoas com deficiência.

- Lei nº 8.213/1991, art. 93 — Lei de Cotas.

- Ministério dos Direitos Humanos — Histórico dos direitos das pessoas com deficiência no Brasil.

- Organização Mundial da Saúde — Disability and Health.

- Organização Mundial da Saúde — Global report on health equity for persons with disabilities.

- Decreto nº 11.793/2023 — Novo Viver sem Limite.

- Hammer & Stutts — The impact of disability representation on disability stigma in a general population, Rehabilitation Psychology, 2025.

Aviso: Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui orientação jurídica, avaliação médica ou acompanhamento psicológico.

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