Autismo em adultos · 16 min de leitura
Quando faltam palavras, o mundo também pode ficar mais difícil de organizar
Linguagem, pensamento e autismo adulto: o que o azul-claro e o azul-escuro em russo revelam sobre a forma como organizamos a experiência
Por Resiliente · 29 de outubro de 2026

A linguagem costuma ser tratada como uma ferramenta para colocar em palavras aquilo que já pensamos. Primeiro haveria a experiência, depois o pensamento e, finalmente, a palavra que dá nome a tudo isso. Essa descrição é conveniente, mas incompleta. A relação entre linguagem e pensamento é mais interessante justamente porque as palavras não funcionam apenas como etiquetas coladas sobre uma realidade previamente organizada: elas também ajudam a estabelecer categorias, destacar diferenças, transmitir regras sociais e tornar determinadas experiências mais fáceis de reconhecer e comunicar.
Isso não significa que sejamos incapazes de pensar aquilo para o qual não temos uma palavra, nem que cada idioma crie uma realidade completamente diferente. A pesquisa contemporânea é muito mais cuidadosa do que uma versão simplificada da chamada hipótese Sapir-Whorf. Há evidências de que características da língua podem influenciar atenção, categorização e determinados processos perceptivos, mas também há evidências de que a linguagem não é condição necessária para formas complexas de pensamento. Uma revisão publicada na Nature em 2024, por exemplo, argumenta que a linguagem é principalmente uma ferramenta de comunicação e que pensamento e linguagem podem ser parcialmente dissociados.
A questão, portanto, não é saber se a linguagem “cria” literalmente o mundo. A questão mais interessante é outra: o que acontece quando uma pessoa recebe, desde muito cedo, um determinado conjunto de categorias linguísticas para organizar a experiência? E o que acontece quando a sua maneira espontânea de interpretar e comunicar não coincide perfeitamente com as convenções linguísticas do ambiente em que vive?
É nesse ponto que a discussão sobre linguagem ganha uma dimensão particularmente importante para compreender o autismo adulto.
O mundo não vem dividido em palavras
Um dos exemplos mais conhecidos da pesquisa sobre relatividade linguística envolve algo aparentemente banal: a cor azul.
Em português, normalmente falamos em azul-claro e azul-escuro como diferentes tonalidades pertencentes à mesma categoria geral. O russo, porém, possui palavras distintas para essas categorias: goluboy para azul-claro e siniy para azul-escuro. A diferença não é apenas vocabular. Em um experimento publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences em 2007, pesquisadores compararam falantes de russo e inglês em tarefas rápidas de discriminação de cores. Os participantes russófonos foram mais rápidos quando precisavam distinguir duas cores que atravessavam a fronteira linguística entre goluboy e siniy.
Isso não significa que uma pessoa que fala inglês ou português seja biologicamente incapaz de perceber a diferença entre dois tons de azul. Também não significa que os russos enxerguem uma cor que os demais seres humanos não conseguem enxergar. O que muda é a forma como uma distinção perceptiva é organizada linguisticamente e, consequentemente, como ela pode ser processada em determinadas tarefas.
É uma diferença pequena, mas conceitualmente poderosa. A língua pode tornar algumas fronteiras cognitivas mais salientes.
O mesmo princípio aparece em outros domínios estudados pela linguística cognitiva. Idiomas diferem na maneira como codificam tempo, espaço, gênero, evidencialidade, movimento, quantidade e relações entre acontecimentos. A pesquisa de Lera Boroditsky e outros pesquisadores levou justamente essa questão ao laboratório, investigando se diferenças linguísticas poderiam produzir diferenças mensuráveis em tarefas cognitivas. A conclusão contemporânea, entretanto, é de influência e interação, não de determinismo: falar uma língua não aprisiona a pessoa dentro de uma forma única de pensar.
Essa distinção é fundamental. A linguagem influencia o pensamento sem necessariamente determinar o pensamento.
Wittgenstein e a ideia de que o significado depende do uso
O vídeo que inspirou este texto parte de uma discussão semelhante ao recuperar Ludwig Wittgenstein e sua reflexão sobre linguagem. Na primeira fase de sua filosofia, Wittgenstein ficou associado à ideia de que os limites da linguagem teriam relação com os limites do nosso mundo. Mais tarde, nas Investigações Filosóficas, sua atenção se deslocou para a maneira como as palavras adquirem significado dentro de práticas concretas.
É daí que surge uma das suas ideias mais conhecidas: os “jogos de linguagem”. Uma palavra não possui necessariamente um significado completamente independente da situação em que é utilizada. Dizer “prometo”, “desculpe”, “pode entrar”, “não se preocupe” ou “depois conversamos” não significa apenas emitir sons que descrevem alguma coisa. Em determinadas circunstâncias, falar é realizar uma ação dentro de uma prática social. A interpretação depende das regras, expectativas e convenções compartilhadas pelos participantes.
Isso ajuda a compreender uma característica particularmente importante da comunicação humana: muitas vezes não comunicamos apenas aquilo que as palavras dizem literalmente.
Quando alguém pergunta “você pode fechar a janela?”, pode estar perguntando sobre capacidade física ou, dependendo do contexto, simplesmente solicitando que a janela seja fechada. Quando um colega diz “depois a gente conversa”, a frase pode significar que haverá uma conversa posteriormente, mas também pode ser uma forma vaga de evitar uma conversa naquele momento. Quando alguém afirma “está tudo bem”, o significado pode depender da expressão facial, do tom de voz, da situação anterior e de uma série de informações que sequer aparecem na frase.
A linguagem humana é cheia dessas camadas.
E é justamente aí que a questão se torna especialmente relevante para o autismo.
Para muitos adultos autistas, o problema não é “não saber falar”
Durante muito tempo, falar sobre linguagem e autismo significou concentrar a atenção na presença ou ausência de fala. Essa perspectiva é insuficiente para compreender uma grande parcela dos adultos autistas.
Pesquisas contemporâneas mostram uma enorme heterogeneidade nos perfis linguísticos do autismo. Há pessoas que não desenvolvem fala funcional, pessoas que utilizam comunicação aumentativa e alternativa e pessoas verbalmente fluentes que apresentam diferenças muito mais sutis em pragmática, reciprocidade conversacional, interpretação de linguagem não literal, prosódia ou uso social da linguagem. Uma revisão de 2024 sobre padrões de fala e linguagem no autismo destaca justamente essa heterogeneidade e descreve diferenças que podem aparecer tanto na produção da fala quanto na pragmática e na reciprocidade conversacional.
Para o adulto autista verbalmente fluente, isso cria uma situação paradoxal: a fluência pode esconder o esforço envolvido na comunicação.
Uma pessoa pode dominar vocabulário sofisticado, escrever muito bem, compreender assuntos complexos e apresentar excelente desempenho em determinadas situações linguísticas e, ainda assim, encontrar dificuldades consideráveis quando a comunicação depende de ambiguidades, inferências sociais, mudanças rápidas de contexto ou significados implícitos.
Uma revisão de 2025 especificamente dedicada à comunicação em adultos autistas descreve exatamente esse padrão. Os autores observam que adultos autistas podem apresentar maior dificuldade quando precisam estender o significado das palavras para situações novas, interpretar sentidos implícitos ou não literais e integrar diferentes elementos contextuais. Ao mesmo tempo, a revisão destaca que a linguagem literal e precisa pode representar uma vantagem em determinados contextos, inclusive em situações nas quais precisão e clareza são valorizadas.
Isso muda completamente a interpretação do problema.
Não se trata simplesmente de “ter dificuldade com linguagem”. Em muitos casos, trata-se de ter uma relação diferente com determinados tipos de linguagem.
Quando a frase tem um significado, mas a situação exige outro
Considere uma frase como “vamos deixar isso para depois”.
Para muitas pessoas, a interpretação ocorre quase automaticamente. O contexto fornece informações suficientes para que o interlocutor conclua se “depois” significa daqui a dez minutos, amanhã, na próxima semana ou simplesmente “não quero falar sobre isso agora”.
Para uma pessoa autista, essa mesma frase pode permanecer excessivamente aberta. Não necessariamente porque ela não compreenda as palavras, mas porque a comunicação depende de informações que não foram explicitadas.
É importante não transformar isso em uma caricatura segundo a qual pessoas autistas seriam incapazes de compreender ironia, metáforas ou linguagem indireta. A realidade é muito mais variável. Uma pessoa pode aprender centenas de expressões idiomáticas, reconhecer sarcasmo com facilidade e, ainda assim, preferir que instruções importantes sejam dadas de maneira explícita.
A pesquisa sobre linguagem figurada mostra justamente essa complexidade. Uma meta-análise que reuniu 41 estudos encontrou, em média, desempenho inferior de pessoas autistas em tarefas de compreensão de linguagem figurada, mas também mostrou que parte importante dessa diferença diminuía ou desaparecia quando os grupos eram equiparados quanto à habilidade linguística. Isso significa que não existe uma incapacidade universal e isolada de compreender linguagem figurada; habilidades linguísticas, tipo de figura de linguagem e características da tarefa também importam.
Em outras palavras, o contexto linguístico pode aumentar ou diminuir a dificuldade.
O problema pode estar entre duas pessoas, não dentro de uma delas
Essa observação leva a uma mudança ainda mais importante.
Durante muito tempo, as dificuldades de comunicação no autismo foram descritas principalmente como déficits localizados na pessoa autista. Pesquisas mais recentes têm questionado essa perspectiva unilateral e investigado aquilo que ficou conhecido como problema da dupla empatia: quando pessoas com diferentes formas de perceber, interpretar e comunicar o mundo interagem, a dificuldade pode surgir da incompatibilidade entre os dois sistemas de comunicação, e não apenas de uma deficiência existente em um dos participantes.
Um estudo sobre transmissão de informação entre pessoas autistas encontrou que a comunicação entre pares autistas podia ser particularmente eficiente, contrariando a expectativa de que a comunicação seria necessariamente prejudicada porque todos os participantes eram autistas.
Pesquisas mais recentes continuam apontando nessa direção. Um estudo publicado em 2026 sobre preferências comunicacionais de adultos autistas encontrou relatos de comunicação mais fácil com outras pessoas autistas e menor necessidade de camuflagem nessas interações.
Isso é importante porque desloca a pergunta.
Em vez de perguntar apenas “por que essa pessoa não entende a comunicação normal?”, podemos perguntar: que tipo de comunicação estamos chamando de normal, quem definiu suas regras e quanto do esforço de adaptação está sendo colocado sobre apenas um dos participantes?
A linguagem também pode virar trabalho invisível
Esse ponto é particularmente relevante na vida adulta.
Uma criança autista pode aprender que determinadas expressões possuem determinados significados. Um adulto, entretanto, precisa aplicar esse conhecimento continuamente em reuniões, entrevistas, relacionamentos, mensagens eletrônicas, ambientes de trabalho, consultas médicas e situações burocráticas.
É possível aprender as regras. O problema é que aprender as regras não significa necessariamente que elas se tornem automáticas.
Uma pessoa pode memorizar que “vamos ver” frequentemente significa “provavelmente não”, que “seria interessante conversarmos” pode significar “precisamos conversar”, que determinada expressão facial indica desaprovação e que uma pausa específica na fala pode significar hesitação. Esse conhecimento pode funcionar, mas exigir processamento consciente.
A revisão de 2025 sobre comunicação em adultos autistas chama atenção para justamente esse tipo de diferença. Alguns adultos descrevem a necessidade de dedicar mais esforço para interpretar simultaneamente linguagem, tom, gestos, expressões e contexto. Os autores recomendam, entre outras medidas, reduzir ambiguidades desnecessárias, utilizar linguagem direta quando apropriado e permitir tempo suficiente para processamento.
Essa questão também aparece fora do consultório. Um estudo com 245 adultos autistas sobre preferências de comunicação encontrou preferência significativa por meios escritos, especialmente em situações envolvendo pessoas ou organizações desconhecidas; ligações telefônicas foram particularmente pouco populares. Os autores sugerem que serviços não deveriam depender exclusivamente do telefone quando alternativas escritas podem tornar o acesso mais adequado.
Não é difícil perceber a consequência prática: uma instituição que fornece informação apenas por um canal pode estar transformando uma diferença comunicacional em uma barreira de acesso.
Quando uma palavra muda a maneira como alguém é percebido
Existe ainda outra dimensão da linguagem que merece atenção: as palavras usadas para falar sobre o próprio autismo.
“Pessoa com autismo”, “pessoa autista”, “no espectro”, “portador”, “transtorno”, “condição”, “diferença”, “deficiência”. Cada termo carrega uma história, uma concepção de pessoa e uma maneira diferente de enquadrar o fenômeno.
Isso não significa que uma palavra isolada determine automaticamente a atitude de quem a utiliza. Mas a escolha linguística participa do enquadramento social de uma realidade.
Uma revisão sistemática publicada recentemente analisou 19 estudos envolvendo 6.350 participantes e encontrou grande variação nas preferências de linguagem entre adultos autistas. Embora muitos estudos tenham encontrado maior preferência por linguagem identitária, também houve apoio significativo à linguagem centrada na pessoa, e os autores concluíram que não existe uma preferência universal. A recomendação mais consistente é respeitar a preferência individual.
Esse resultado é particularmente interessante para o argumento deste artigo: a própria comunidade autista não constitui uma única comunidade linguística homogênea.
Há diferentes experiências, diferentes culturas, diferentes idiomas e diferentes relações subjetivas com as palavras usadas para nomear o autismo.
Não existe, portanto, uma “linguagem autista” única. Existem pessoas autistas que utilizam a linguagem de maneiras diversas.
E se a linguagem também organizasse a experiência interna?
Há uma pergunta ainda mais íntima: como a linguagem participa do pensamento que uma pessoa mantém consigo mesma?
Uma pesquisa publicada em 2024 examinou experiências internas de 303 adultos autistas e 289 não autistas. Os dois grupos apresentaram grande variedade de formas de pensamento, mas os adultos autistas relataram maior uso de fala interna e de autodiálogo para avaliação social, autocrítica e autogerenciamento. Essas formas de experiência interna também apresentaram relações com ansiedade e depressão.
Esse resultado não autoriza dizer que “autistas pensam em palavras” ou que “autistas pensam visualmente”. Ambas seriam generalizações inadequadas. O que a pesquisa mostra é que existem diferenças individuais importantes na experiência interna e que, entre os adultos estudados, determinados usos da fala interna foram mais frequentes no grupo autista.
Isso abre uma possibilidade interessante para pensar a vida adulta: as palavras não servem apenas para conversar com outras pessoas; elas também podem ser ferramentas para organizar situações, planejar ações, avaliar riscos e administrar experiências difíceis.
Para alguém que enfrenta diariamente situações sociais pouco previsíveis, transformar uma situação vaga em uma sequência linguística mais explícita pode ser uma estratégia de organização.
“Tenho uma reunião às 14h.”
“Preciso perguntar qual é o prazo.”
“Não entendi se isso é uma solicitação ou uma sugestão.”
“Preciso de uma resposta por escrito.”
A linguagem, nesse contexto, não está simplesmente descrevendo o mundo. Ela está ajudando a torná-lo mais estruturado.
O que isso muda na compreensão do autismo adulto?
Talvez a consequência mais importante seja abandonar uma ideia excessivamente simples de comunicação.
Comunicar não é apenas falar corretamente. Também não é apenas compreender palavras. A comunicação humana envolve inferência, contexto, timing, prosódia, gestos, convenções sociais, conhecimento compartilhado, expectativas e uma quantidade enorme de informação que raramente aparece explicitamente na frase.
Para muitos adultos autistas, uma parte significativa desse sistema pode exigir mais processamento consciente, apresentar maior variabilidade ou funcionar melhor quando as informações relevantes são explicitadas. A literatura contemporânea sobre comunicação em adultos autistas recomenda justamente uma abordagem que reconheça essa diversidade em vez de presumir uma incapacidade uniforme.
Isso também ajuda a compreender por que determinadas adaptações aparentemente pequenas podem produzir uma diferença enorme: receber instruções por escrito, conhecer previamente a pauta de uma reunião, saber exatamente qual é o prazo, evitar ambiguidades desnecessárias, não interpretar uma resposta mais lenta como falta de atenção e permitir que a pessoa peça esclarecimentos sem ser tratada como incompetente.
O objetivo não deveria ser obrigar uma pessoa autista a aprender todas as regras implícitas da comunicação não autista enquanto o restante do ambiente permanece inalterado.
A acessibilidade comunicacional também consiste em tornar a comunicação mais inteligível.
A própria orientação clínica para adultos autistas do NICE recomenda que profissionais considerem as necessidades comunicacionais individuais, expliquem claramente a linguagem clínica e ofereçam informações em formatos apropriados.
O azul-claro e o azul-escuro
Voltamos, então, ao azul.
O exemplo russo não demonstra que a linguagem cria uma realidade diferente. Ele mostra algo mais interessante e mais defensável: as categorias que uma língua torna relevantes podem influenciar a velocidade e a maneira como determinadas diferenças são processadas.
No autismo adulto, podemos pensar em algo semelhante sem fazer uma falsa equivalência.
Talvez duas pessoas estejam diante da mesma conversa, mas não estejam necessariamente operando com as mesmas categorias para interpretar o que está acontecendo. Uma pode perceber imediatamente uma mudança de tom como sinal de desaprovação; outra pode precisar de uma informação mais explícita. Uma pode interpretar “vamos conversar depois” como uma indicação suficientemente clara de que o assunto continuará; outra pode precisar saber quando será essa conversa. Uma pode considerar uma instrução vaga perfeitamente normal; outra pode experimentar a mesma instrução como uma quantidade excessiva de possibilidades abertas.
Não significa que uma esteja vendo a realidade e a outra esteja errada.
Significa que a realidade social humana é parcialmente construída por convenções compartilhadas de interpretação, e essas convenções nem sempre são igualmente transparentes para todos.
É por isso que a discussão sobre linguagem interessa tanto ao autismo adulto. Ela nos permite abandonar a ideia de que comunicação é simplesmente uma habilidade que alguém possui ou não possui. Comunicação é também um encontro entre sistemas de significação.
E, nesse encontro, talvez a pergunta mais produtiva não seja “quem está com dificuldade para entender?”.
Talvez seja: o que exatamente estamos deixando implícito?
Uma última distinção
O vídeo que deu origem a esta reflexão vai além da linguística e da psicologia ao relacionar linguagem, vibração sonora, DNA, água e criação da realidade. Essas ideias podem ser interessantes como elementos filosóficos ou culturais, mas não devem ser apresentadas como equivalentes às evidências experimentais sobre linguagem e cognição. A pesquisa científica disponível sustenta de maneira muito mais consistente uma tese menos espetacular e, talvez justamente por isso, mais interessante: a linguagem participa da maneira como categorizamos, interpretamos e comunicamos a experiência, mas não determina sozinha aquilo que podemos pensar ou perceber.
Essa versão mais sóbria da hipótese já é suficiente para produzir uma pergunta profunda sobre o autismo adulto.
Se as palavras ajudam a organizar aquilo que percebemos, então oferecer palavras mais claras, contextos mais explícitos e diferentes formas de comunicação não significa simplesmente “facilitar” a vida de alguém. Pode significar fornecer uma ferramenta para que a pessoa consiga participar da realidade social com menos esforço desnecessário.
Às vezes, mudar uma palavra não muda o mundo.
Mas pode mudar o que conseguimos distinguir dentro dele.
E, para quem passou anos tentando entender um mundo social cheio de significados implícitos, essa diferença pode ser muito maior do que parece.
Fontes e leituras
- Winawer et al. (2007), Russian blues reveal effects of language on color discrimination, PNAS.
- Fedorenko, Piantadosi & Gibson (2024), Language is primarily a tool for communication rather than thought, Nature.
- de Marchena et al. (2025), Communication in Autistic Adults: An Action-Focused Review, Current Psychiatry Reports.
- Trayvick et al. (2024), Speech and language patterns in autism, Psychiatry Research.
- Deliens et al., revisão/meta-análise sobre compreensão de linguagem figurada no autismo.
- Crompton et al. (2020), Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective.
- Howard & Sedgewick (2021), Anything but the phone!.
- Mazurek et al. (2024), Inner experiences, mental health, and well-being in autistic and non-autistic adults.
- Schuck et al. (2025), revisão sistemática sobre preferências de linguagem identitária e centrada na pessoa.
- NICE, Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management.
Aviso: Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional.
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