Autismo em adultos · 19 min de leitura
Quando todo mundo está fazendo, você precisa fazer também?
Bruce Fink, Lacan, o desejo e o lugar do autismo diante da exigência de ser “normal”
Por Resiliente · 12 de outubro de 2026

A frase que dá título à entrevista de Bruce Fink ao Valor Econômico parece, à primeira vista, uma crítica simples ao comportamento de massa: se todos fazem a mesma coisa, por que eu deveria fazer também?
Mas o que está em jogo na fala do psicanalista americano é mais complexo. Fink está falando a partir da tradição de Jacques Lacan e de uma questão central da psicanálise: o que acontece com o desejo de um sujeito quando aquilo que ele acredita desejar é, em grande medida, aquilo que aprendeu que deveria desejar?
É justamente nesse ponto que a entrevista ganha particular interesse quando pensamos no autismo.
Não porque Fink esteja dizendo que autistas simplesmente “não querem ser como os outros”. Ele não afirma isso. A relação é outra: sua discussão sobre normalização, linguagem, diagnóstico, desejo e relação com o Outro fornece elementos para pensar uma questão particularmente importante para muitos adultos autistas: até que ponto a maneira como uma pessoa tenta viver corresponde ao que ela própria deseja e até que ponto corresponde ao que aprendeu que deveria ser?
E essa pergunta, na perspectiva lacaniana apresentada por Fink, não pode ser respondida simplesmente olhando para aquilo que a pessoa declara conscientemente querer.
“A única coisa permitida hoje é o que todo mundo está fazendo”
Bruce Fink parte de uma observação sobre a sociedade contemporânea.
Segundo ele, vivemos cercados por explicações sobre quem deveríamos ser, imagens de felicidade, modelos de vida e padrões de sucesso. As redes sociais ampliaram esse fenômeno porque, além de observarmos outras pessoas e compararmos nossas vidas às delas, também somos permanentemente observados, avaliados e confrontados. Fink relaciona essa dinâmica ao aumento das queixas que chegam aos consultórios. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Uma das perguntas que ele diz ouvir com frequência dos pacientes é:
“Isso é normal?”
É uma pergunta aparentemente objetiva, mas que, para a psicanálise lacaniana, contém um problema muito maior.
Normal em relação a quê?
Quem estabeleceu esse padrão?
Quem disse que uma determinada maneira de viver é a correta?
E, principalmente: o que o próprio sujeito deseja, para além daquilo que acredita que deveria desejar?
É nesse contexto que Fink recupera uma formulação de Lacan — “se Deus está morto, nada é permitido” — para produzir uma espécie de inversão irônica: hoje, a única coisa permitida seria aquilo que todo mundo está fazendo. 2026-09-10 - lacan e o autismo
A questão deixa de ser apenas “por que as pessoas imitam umas às outras?” e passa a ser uma questão propriamente psicanalítica:
o que acontece quando uma pessoa deixa de perguntar quem deve ser e começa a escutar aquilo que deseja?
O problema não é simplesmente seguir a maioria
Ser influenciado pela sociedade não é uma peculiaridade contemporânea nem significa, por si só, que uma pessoa esteja vivendo de maneira falsa.
Lacan não propõe uma oposição simplista entre indivíduo autêntico e sociedade opressora.
O ponto é mais sofisticado.
Para a psicanálise lacaniana, o sujeito não se constitui fora da linguagem e das relações com os outros. Aquilo que aprendemos sobre nós mesmos, aquilo que nossos pais esperavam, aquilo que professores valorizavam, aquilo que a cultura apresenta como sucesso e aquilo que nossos grupos consideram desejável participam da constituição de nossa subjetividade.
Por isso, a pergunta não é simplesmente:
“Você está fazendo o que os outros fazem?”
A pergunta psicanalítica seria:
“O que, naquilo que você está fazendo, pertence ao seu desejo e o que está respondendo ao desejo do Outro?”
É nesse sentido que o conceito lacaniano de Outro, escrito frequentemente com inicial maiúscula, torna-se importante.
O Outro não é simplesmente “uma outra pessoa”. Na teoria de Lacan, o termo está relacionado ao campo da linguagem, da lei, dos significantes e das expectativas a partir das quais o sujeito se constitui.
É o campo no qual aprendemos, por exemplo, que determinada profissão é “boa”, determinada aparência é “bonita”, determinado comportamento é “educado”, determinada relação é “normal” e determinada maneira de viver significa “ter sucesso”.
Bruce Fink trabalha exatamente com essa perspectiva em sua interpretação de Lacan.
O desejo não é a mesma coisa que aquilo que dizemos querer
Um dos pontos mais interessantes da entrevista aparece quando o Valor pergunta a Fink o que significa, clinicamente, dizer que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”.
A resposta de Fink é fundamental para compreender sua abordagem.
Para ele, o desejo não é simplesmente um impulso vago. Ele é formulado na linguagem. E aquilo que uma pessoa diz conscientemente querer pode não coincidir com aquilo que aparece em seus atos falhos, sonhos, fantasias e outras manifestações do inconsciente. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Fink dá um exemplo particularmente importante para a discussão sobre normalização.
As pessoas podem dizer que querem determinadas coisas porque acreditam que precisam querer aquilo para parecer normais, evitar julgamentos negativos ou ser como todo mundo.
Nesse caso, aquilo que elas dizem desejar pode corresponder mais ao que seus pais, professores, amigos ou a sociedade disseram que deveriam desejar do que ao seu próprio desejo inconsciente.
É justamente essa diferença que interessa à psicanálise.
Não se trata de simplesmente dizer:
“Você está mentindo.”
Trata-se de investigar por que aquilo que o sujeito diz querer não coincide com aquilo que aparece em sua própria fala e em sua experiência.
Para Fink, essa contradição pode estar na origem de conflitos importantes na vida profissional, artística e afetiva. 2026-09-10 - lacan e o autismo
E onde o autismo entra nessa discussão?
É aqui que a entrevista se torna especialmente interessante para o Resiliente.
Bruce Fink não fala sobre autismo apenas como uma aplicação secundária de sua teoria. Ele estava prestes a lançar, à época da entrevista, A Lacanian Approach to Autism: Dilemmas of Giving and Receiving, livro no qual desenvolve especificamente uma abordagem lacaniana do autismo. A própria agenda profissional de Fink também registra trabalhos recentes sobre uma abordagem lacaniana do autismo, incluindo questões de reconhecimento, reciprocidade, linguagem e posição do sujeito. 2026-09-10 - lacan e o autismo Bruce Fink
Na entrevista, Fink afirma que as pessoas entram na linguagem de maneiras diferentes. Em sua formulação, ele situa o autismo como uma quarta estrutura psicanalítica, distinguindo-o das estruturas clássicas de neurose, psicose e perversão. Ele também afirma que algumas pessoas entram na linguagem apenas parcialmente, sem assimilar completamente sua estrutura metonímica e metafórica. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Esse é um ponto importante.
Estamos falando aqui de uma concepção estrutural própria da psicanálise lacaniana, e não de uma definição médica ou diagnóstica de autismo.
O diagnóstico de autismo utilizado pela medicina e pela psicologia contemporâneas é organizado por outros referenciais, como DSM e CID. A própria entrevista mostra que Fink considera a diferença entre esses sistemas e a abordagem psicanalítica uma questão relevante.
Portanto, não seria correto transformar a teoria lacaniana em uma explicação científica consensual sobre o autismo.
Mas também seria um erro ignorar o que essa teoria está tentando perguntar.
O autismo não é, para Fink, apenas uma lista de comportamentos
A diferença aparece justamente na maneira como Fink entende o diagnóstico.
Na entrevista, ele afirma que a contribuição revolucionária de Lacan está na importância atribuída à fala do analisando e às diferentes maneiras pelas quais essa fala pode ser trabalhada clinicamente.
Para Fink, o diagnóstico estrutural não deve simplesmente partir da coleção de sintomas observáveis.
A mesma manifestação pode ter significados diferentes dependendo da estrutura clínica em questão. Por isso, ele afirma que a fala não deve ser interpretada da mesma maneira em um sujeito neurótico e em um sujeito psicótico, por exemplo. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Essa ideia ajuda a compreender por que o novo livro de Fink sobre autismo não é simplesmente um manual de sintomas.
A questão é perguntar como determinado sujeito está situado em relação à linguagem, ao Outro, ao desejo e ao mundo.
É uma diferença importante.
O autismo, nessa perspectiva, não é reduzido àquilo que um observador externo consegue listar.
“Ser normal” pode se tornar uma exigência
Aqui voltamos ao título da entrevista.
Se a sociedade produz continuamente modelos de como uma pessoa deve ser, o sujeito pode passar a organizar sua vida em torno dessas expectativas.
Para Fink, os imperativos contemporâneos de sucesso, produtividade e aperfeiçoamento permanente intensificam uma sensação de falta que já existe no sujeito. Eles reforçam perguntas como:
sou inteligente o suficiente?
sou bem-sucedido o suficiente?
sou atraente o suficiente?
sou atencioso o suficiente?
sou bom o suficiente?
A sociedade oferece respostas aparentemente prontas para essas perguntas: trabalhe mais, produza mais, seja mais sociável, tenha mais sucesso, tenha o relacionamento certo, alcance o corpo certo, tenha a carreira certa.
E então surge uma consequência paradoxal:
quanto mais possibilidades existem, mais intensa pode ser a sensação de estar inadequado. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Para muitos adultos autistas, essa questão pode assumir uma dimensão particular.
Não porque todos os autistas vivam da mesma maneira — evidentemente não vivem —, mas porque uma pessoa autista pode passar grande parte da vida aprendendo conscientemente regras sociais que outras pessoas parecem adquirir de maneira mais intuitiva.
Ela pode aprender como olhar, como conversar, como responder, como demonstrar interesse, como controlar determinados comportamentos, como participar de uma reunião, como escrever uma mensagem ou como parecer mais “natural”.
Esse fenômeno é frequentemente chamado de masking ou camuflagem social.
A psicanálise lacaniana não deve ser usada para afirmar que todo masking é necessariamente uma mentira ou que todo comportamento adaptativo é alienação.
Mas a pergunta de Fink permite uma investigação interessante:
quando uma pessoa passa tanto tempo tentando corresponder ao que os outros esperam, ainda consegue distinguir aquilo que deseja daquilo que aprendeu que deveria desejar?
Diagnóstico: reconhecimento ou explicação pronta?
É justamente aqui que Fink faz uma crítica que merece ser tratada com cuidado.
Na entrevista, ele questiona a tendência contemporânea de transformar diagnósticos em explicações completas para a própria existência.
Fink afirma que, na psicanálise, o paciente é incentivado a investigar por que é como é e como se tornou aquilo que se tornou.
Segundo ele, agarrar-se a um diagnóstico como uma explicação pronta pode interromper esse processo. Ele critica especialmente a ideia de que uma pessoa tenha encontrado simplesmente uma causa genética ou hormonal que explique tudo e que, consequentemente, exista uma solução medicamentosa capaz de “consertá-la”. Ele também critica a proliferação do autodiagnóstico por questionários disponíveis na internet. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Essa crítica precisa ser lida com bastante cuidado quando falamos de autismo.
Reconhecer que um diagnóstico não explica toda uma pessoa não significa negar a realidade do diagnóstico.
Para uma pessoa autista, o diagnóstico pode ser fundamental para compreender a própria história, acessar direitos, obter adaptações, encontrar serviços e construir uma narrativa mais coerente sobre experiências que anteriormente pareciam inexplicáveis.
A crítica de Fink é dirigida a outra coisa: à transformação do diagnóstico em uma explicação totalizante, que encerra a pergunta sobre o sujeito em vez de abri-la.
É uma diferença fundamental.
Autismo, linguagem e a questão da diferença
A relação entre autismo e linguagem ocupa lugar importante no pensamento que Fink apresenta na entrevista.
Quando o Valor pergunta sobre as estruturas clínicas, Fink responde que as pessoas entram na linguagem de maneiras diferentes. É nesse contexto que ele apresenta o autismo como quarta estrutura e relaciona sua discussão ao livro que estava prestes a lançar. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Isso ajuda a compreender por que o título de seu livro fala em “dar e receber”.
A questão não é simplesmente saber se uma pessoa autista “sabe socializar”.
A questão psicanalítica é investigar como se estabelecem — ou não — relações de reconhecimento, reciprocidade, linguagem e troca com o Outro.
Essa é uma abordagem muito diferente de simplesmente perguntar:
“Quais sintomas o indivíduo apresenta?”
Ela pergunta:
“Como esse sujeito se posiciona diante do outro e da linguagem?”
É uma pergunta propriamente lacaniana.
Real, simbólico e imaginário
Outro momento importante da entrevista ocorre quando Fink explica os três registros fundamentais de Lacan: Real, Simbólico e Imaginário.
De maneira bastante simplificada:
- o Imaginário está relacionado às imagens, identificações e comparações;
- o Simbólico está relacionado à linguagem, aos significantes e à lei;
- o Real é aquilo que não se deixa totalmente capturar pela simbolização.
Fink explica que, na clínica lacaniana, o trabalho procura deslocar o foco das comparações imaginárias e trabalhar a experiência do sujeito por meio da linguagem. Ele afirma que o analista não deve simplesmente aceitar ou rejeitar as projeções que o paciente coloca sobre ele, mas investigar de onde vêm essas ideias e emoções. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Isso é particularmente interessante quando pensamos novamente na sociedade descrita por Fink.
Uma cultura baseada em comparação produz uma enorme quantidade de identificações imaginárias:
“Quero ser como aquela pessoa.”
“Preciso ter aquela carreira.”
“Preciso parecer daquela maneira.”
“Preciso me relacionar daquele jeito.”
“Preciso funcionar como todo mundo.”
A psicanálise não responde simplesmente:
“Não seja como ninguém.”
Ela pergunta:
“O que está acontecendo com você nessa comparação?”
O desejo e o gozo não são a mesma coisa
Fink também diferencia desejo e gozo, outro conceito fundamental da psicanálise lacaniana.
Na entrevista, ele afirma que o gozo não mente da mesma maneira que o desejo pode ser dissimulado ou deslocado. Uma pessoa pode dizer que deseja alguma coisa e, entretanto, experimentar satisfação justamente em situações que afirma não querer. 2026-09-10 - lacan e o autismo
O objetivo da análise, nessa perspectiva, não seria simplesmente ensinar alguém a conseguir aquilo que declarou desejar.
Seria possibilitar uma aproximação maior entre aquilo que o sujeito deseja e aquilo que efetivamente encontra em sua experiência.
Isso modifica profundamente a ideia de “sucesso”.
Talvez uma pessoa esteja perseguindo uma carreira porque acredita que deveria ter aquela carreira.
Talvez queira determinado relacionamento porque acredita que é o relacionamento correto.
Talvez tente incessantemente parecer socialmente adequada porque aprendeu que esse é o comportamento esperado.
Mas o que acontece quando ela começa a perguntar:
“Eu realmente quero isso?”
Essa pergunta não produz necessariamente uma resposta imediata.
É justamente por isso que, para Lacan e Fink, o desejo não é uma resposta pronta.
Ele é uma questão que precisa ser sustentada.
E o autista que passou a vida tentando parecer “normal”?
Aqui talvez esteja uma das questões mais interessantes para o leitor autista adulto.
É possível passar décadas tentando responder à pergunta:
“Como eu deveria ser para que as outras pessoas me aceitem?”
E, depois de um diagnóstico tardio, surgir outra pergunta:
“Quem eu sou quando não estou tentando responder a essa expectativa?”
A psicanálise lacaniana não fornece uma resposta pronta para essa pergunta.
E talvez seja justamente esse o ponto.
Ela não deveria substituir uma norma por outra.
Não seria adequado trocar:
“Você precisa ser como todo mundo.”
por:
“Você precisa ser autenticamente autista.”
As duas frases podem se transformar em novas formas de prescrição.
O que a perspectiva apresentada por Fink permite fazer é manter a pergunta aberta:
o que você deseja?
O que, na sua maneira de viver, pertence ao seu desejo?
O que foi colocado sobre você pelo desejo dos outros?
Quais escolhas são realmente suas?
Quais são respostas a expectativas que você aprendeu a considerar naturais?
Para um adulto autista, essas perguntas podem se cruzar com questões muito concretas sobre masking, relacionamentos, trabalho, comunicação, carreira e pertencimento.
Mas não existe uma resposta universal.
A psicanálise não deveria transformar o autismo em uma nova norma
Esse ponto é especialmente importante para o Resiliente.
Existe um risco quando conceitos psicanalíticos são aplicados ao autismo: transformar uma teoria sobre subjetividade em uma nova explicação universal para todas as pessoas autistas.
Isso seria justamente contrário àquilo que a própria psicanálise lacaniana pretende investigar.
Se o sujeito não pode ser reduzido ao diagnóstico, também não pode ser reduzido a uma teoria psicanalítica.
O autismo não desaparece porque alguém o interpreta psicanaliticamente.
E uma pessoa autista não deixa de ser autista porque descobriu algo sobre seu desejo.
Da mesma forma, uma dificuldade concreta de comunicação, uma sobrecarga sensorial ou uma necessidade de adaptação não deveria ser interpretada simplesmente como um “conflito inconsciente”.
São planos diferentes.
A perspectiva lacaniana pode acrescentar uma pergunta sobre o sujeito. Ela não substitui a neurologia, a psicologia, a psiquiatria, a terapia ocupacional, a medicina ou outras áreas necessárias para compreender o autismo e oferecer suporte.
O que Bruce Fink está propondo, afinal?
Talvez seja possível resumir a entrevista de Fink em uma pergunta que aparece de várias maneiras ao longo dela:
quando uma pessoa diz que quer alguma coisa, de onde veio esse querer?
Essa pergunta atravessa vários temas da entrevista:
- o parceiro “ideal”;
- a busca pela alma gêmea;
- o sucesso profissional;
- a produtividade;
- a necessidade de melhorar continuamente;
- a preocupação em ser normal;
- os diagnósticos;
- a linguagem;
- o desejo;
- o gozo;
- a relação com o Outro.
E é exatamente por isso que o título da entrevista é provocativo.
“A única coisa permitida hoje é o que todo mundo está fazendo.”
Não é simplesmente uma crítica às pessoas que seguem tendências.
É uma pergunta sobre como o desejo pode ser capturado por aquilo que a sociedade apresenta como desejável.
Bruce Fink afirma que a psicanálise, ao contrário de simplesmente normalizar o paciente, procura colocar o desejo inconsciente em primeiro plano — mesmo quando ele entra em conflito com costumes sociais, expectativas religiosas ou aquilo que é considerado politicamente correto. Depois disso, cabe ao próprio paciente decidir como navegar no mundo a partir daquilo que descobriu sobre si. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Para o autismo, talvez a pergunta seja ainda mais delicada
A pessoa autista pode passar uma parte significativa da vida tentando compreender regras que parecem óbvias para os demais.
Pode aprender conscientemente aquilo que outras pessoas parecem saber intuitivamente.
Pode adaptar sua comunicação.
Pode observar os outros.
Pode imitar comportamentos.
Pode tentar antecipar expectativas.
Pode construir estratégias para participar de ambientes sociais.
Tudo isso pode ser necessário.
E nem toda adaptação é necessariamente um problema.
Mas existe uma diferença entre adaptar-se a um mundo que também precisa se tornar acessível e acreditar que a única maneira legítima de existir é parecer outra pessoa.
É aqui que a discussão de Bruce Fink pode encontrar o debate contemporâneo sobre autismo sem transformar uma teoria psicanalítica em uma explicação total do autismo.
A pergunta não precisa ser:
“Como faço para parecer normal?”
Nem necessariamente:
“Como deixo de me adaptar completamente?”
Pode ser uma pergunta mais difícil:
“Quais adaptações me permitem viver melhor e quais me afastam daquilo que reconheço como meu?”
Essa pergunta não possui uma resposta universal.
E talvez seja justamente por isso que ela seja uma pergunta interessante para a psicanálise.
A interpretação não deve colocar palavras na boca do sujeito
No final da entrevista, Fink explica outro aspecto fundamental da clínica lacaniana: a interpretação.
Para ele, interpretar não significa simplesmente explicar ao paciente o significado oculto de tudo aquilo que ele diz.
A interpretação lacaniana trabalha muito próxima da própria fala do analisando. Fink descreve uma intervenção concisa, muitas vezes minimalista, que pode brincar com palavras, inverter sua ordem ou destacar uma formulação utilizada pelo próprio paciente.
A finalidade é produzir um efeito, “fazer ondas”, como ele relaciona à formulação de Lacan. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Isso é coerente com toda a entrevista.
O analista não deveria chegar com uma resposta pronta para dizer:
“Você é assim por causa disso.”
A própria pessoa precisa ser colocada em condições de escutar aquilo que está dizendo.
Porque, para Fink, muitas vezes o sujeito não sabe inteiramente o que está dizendo até ouvir a si mesmo dizendo aquilo.
O que fica depois da pergunta
A grande questão levantada por Bruce Fink não é se devemos abandonar a sociedade, ignorar expectativas ou fazer tudo diferente dos demais.
Também não é dizer que aquilo que a maioria faz é necessariamente errado.
A questão é outra.
Uma sociedade pode produzir padrões tão fortes de normalidade que as pessoas passam a confundir aquilo que aprenderam que deveriam querer com aquilo que efetivamente desejam.
E a psicanálise lacaniana, na leitura apresentada por Bruce Fink, tenta abrir um espaço para investigar essa diferença.
Quando essa discussão é colocada em contato com o autismo, ela ganha uma camada adicional.
O autista adulto não precisa ser reduzido ao diagnóstico.
Mas também não precisa ser reduzido à obrigação de parecer não autista.
Entre essas duas reduções existe um espaço muito mais complexo: o espaço da singularidade de cada sujeito.
É nesse espaço que a pergunta de Fink pode ser retomada:
quando todo mundo está fazendo, você precisa fazer também?
Talvez a psicanálise não tenha como objetivo fornecer uma resposta.
Talvez sua contribuição seja fazer com que, antes de responder, o sujeito consiga finalmente perguntar:
“Mas o que eu quero?”
Uma ressalva necessária
Este texto é uma análise editorial do conteúdo da entrevista de Bruce Fink ao Valor Econômico e de conceitos da tradição psicanalítica lacaniana relacionados ao autismo. A concepção de autismo como “quarta estrutura” apresentada por Fink pertence a uma vertente específica da psicanálise e não representa consenso científico ou diagnóstico na psiquiatria, psicologia ou medicina contemporâneas. O diagnóstico de TEA e as formas de avaliação e tratamento devem ser compreendidos também a partir das evidências e referenciais próprios dessas áreas.
A entrevista original informa ainda que Fink lançaria em novembro de 2026 o livro A Lacanian Approach to Autism: Dilemmas of Giving and Receiving, dedicado especificamente a uma abordagem lacaniana do autismo. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Fontes
Valor Econômico — “A única coisa permitida hoje é o que todo mundo está fazendo', diz o psicanalista Bruce Fink” — entrevista que constitui a fonte principal desta análise. 2026-09-10 - lacan e o autismo
Bruce Fink — site oficial, onde é apresentado como psicanalista lacaniano, autor e supervisor, e onde estão relacionadas suas publicações e atividades sobre Lacan e autismo. Bruce Fink
FINK, Bruce. A Clinical Introduction to Lacanian Psychoanalysis: Theory and Technique. A obra é particularmente relevante para os conceitos de desejo, linguagem, diagnóstico e técnica psicanalítica discutidos no artigo. pdfcoffee.com
FINK, Bruce. The Lacanian Subject: Between Language and Jouissance. Obra central para a discussão do sujeito lacaniano, linguagem e gozo. Bruce Fink
FINK, Bruce. Lacan to the Letter: Reading Écrits Closely. O próprio Fink apresenta ali sua abordagem de leitura minuciosa da obra de Lacan. University of Minnesota Press
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Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional.