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Autismo em adultos · 20 min de leitura

Resiliência no autismo não é aguentar tudo sozinho

Um estudo com pessoas autistas e familiares mostra que saúde mental e capacidade de enfrentar adversidades dependem também de rotina, apoio, comunidade e do contexto em que a pessoa vive

Por Resiliente · 18 de outubro de 2026

Pessoa adulta de costas, sentada em almofadas numa varanda ao pôr do sol, com um gato, livros e uma xícara, enquanto silhuetas e balões de fala se dissolvem ao fundo.

A palavra “resiliência” costuma aparecer associada à capacidade de enfrentar dificuldades, adaptar-se às mudanças e recuperar-se depois de experiências adversas. No entanto, quando o conceito é aplicado ao autismo, existe um risco importante: transformar resiliência em uma exigência para que a própria pessoa aprenda a suportar, individualmente, todas as dificuldades produzidas pela interação entre suas características e o ambiente em que vive. Essa interpretação é particularmente problemática quando se considera a experiência de adultos autistas que conseguem estudar, trabalhar, manter relações e conduzir uma vida relativamente independente, mas fazem isso frequentemente à custa de um esforço que permanece invisível para as pessoas ao redor.

Um estudo publicado em 2024 na revista BMC Psychology procurou investigar justamente o que pode contribuir para o desenvolvimento da resiliência em pessoas autistas. Intitulado How to build resiliency in autistic individuals: an implication to advance mental health, o trabalho foi conduzido por Parisa Ghanouni, Rebeccah Raphael, Liam Seaker e Amanda Casey e partiu de uma questão ainda pouco explorada pela literatura: como as próprias pessoas autistas e seus familiares compreendem as estratégias que podem favorecer a resiliência e a saúde mental? Springer Nature

A pesquisa entrevistou 18 participantes no Canadá, sendo 13 pessoas autistas e cinco pais de adultos autistas. Os participantes autistas tinham entre 27 e 53 anos e eram descritos pelos pesquisadores como funcionalmente independentes, com capacidade cognitiva para realizar suas atividades cotidianas com nenhum ou mínimo suporte. As entrevistas foram realizadas entre janeiro de 2022 e janeiro de 2023, e os pesquisadores utilizaram análise temática para identificar padrões nas experiências relatadas. Springer Nature

O resultado mais interessante do estudo talvez esteja menos em qualquer estratégia isolada e mais na própria estrutura encontrada pelos pesquisadores. As experiências foram organizadas em três grandes dimensões: estratégias que a própria pessoa pode utilizar, recursos disponíveis na comunidade e características individuais e contextuais que interferem na capacidade de enfrentar adversidades. Essa organização já demonstra por que uma definição puramente individual de resiliência é insuficiente. A capacidade de lidar com uma situação difícil não depende somente das características psicológicas de uma pessoa; depende também de suas condições de vida, de suas relações e dos recursos que estão efetivamente disponíveis. Springer Nature

O que significa ser resiliente?

Os autores utilizam uma concepção de resiliência relacionada à capacidade de responder a circunstâncias desafiadoras e recuperar-se de experiências adversas. Na literatura geral, esse conceito é frequentemente compreendido a partir da interação entre fatores de risco e fatores de proteção: algumas características e circunstâncias aumentam a probabilidade de resultados negativos diante de uma adversidade, enquanto outras podem proteger a pessoa e favorecer uma resposta mais adaptativa. Entre os fatores individuais associados à resiliência aparecem elementos como autoestima, autocompreensão, capacidade de solucionar problemas e competência social; entre os fatores ambientais estão as redes sociais, o apoio familiar e comunitário e a qualidade das relações próximas. Springer Nature

O ponto fundamental, portanto, é que resiliência não precisa ser entendida como uma propriedade fixa que alguém possui ou não possui. Ela pode ser compreendida como um processo que se manifesta de maneiras diferentes conforme a situação, os recursos disponíveis e as características da própria pessoa.

Essa perspectiva é particularmente relevante para o autismo porque as experiências de adversidade não são necessariamente iguais às observadas na população não autista. Sobrecarga sensorial, imprevisibilidade, dificuldades de comunicação, isolamento social, exigências sociais pouco explícitas e outras barreiras podem produzir uma carga adicional de estresse. Ao mesmo tempo, condições concomitantes de saúde física ou mental podem reduzir ainda mais os recursos disponíveis para enfrentar situações difíceis. Os autores observam justamente que a resiliência em pessoas autistas ainda é uma área pouco estudada e que ela pode assumir características diferentes das observadas na população geral. Springer Nature

A primeira dimensão: aquilo que a própria pessoa pode fazer

Uma parte importante das entrevistas tratou de estratégias que podem ser desenvolvidas ou utilizadas diretamente pela pessoa autista. Os pesquisadores organizaram essas estratégias em três grupos: respostas diante de uma dificuldade que já está acontecendo, soluções destinadas a prevenir ou reduzir problemas futuros e manutenção de rotinas cotidianas.

No primeiro caso, os participantes destacaram especialmente a regulação emocional. Isso não significa simplesmente “controlar as emoções”, como se uma reação emocional intensa fosse necessariamente um comportamento inadequado que precisasse ser eliminado. O que aparece nos relatos é a necessidade de reconhecer o próprio estado e encontrar uma maneira de recuperar algum grau de estabilidade quando a situação começa a ultrapassar a capacidade de enfrentamento naquele momento. Entre as estratégias mencionadas estavam fazer pequenas pausas, afastar-se temporariamente de um problema e utilizar atividades que contribuíssem para recuperar o equilíbrio. Springer Nature

Um aspecto particularmente interessante apareceu quando os participantes discutiram a dificuldade de regular-se quando a própria pessoa não consegue reconhecer com clareza o que significa estar regulada. Se alguém permanece constantemente em um estado elevado de tensão, pode ser difícil identificar o momento em que a sobrecarga começou a aumentar. Isso sugere que desenvolver resiliência não envolve apenas aprender uma técnica para utilizar durante uma crise, mas também desenvolver maior percepção sobre as próprias condições de funcionamento.

Essa distinção é importante na vida adulta. Uma pessoa pode passar horas trabalhando, participando de reuniões, respondendo mensagens e lidando com estímulos sociais sem demonstrar externamente que está chegando ao limite. A ausência de uma manifestação visível de sofrimento, entretanto, não significa necessariamente que o esforço esteja sendo pequeno. Em determinadas situações, o reconhecimento tardio da sobrecarga pode fazer com que uma intervenção que teria sido simples algumas horas antes se torne muito mais difícil.

A prevenção pode ser mais importante do que a recuperação

Os participantes também destacaram estratégias proativas, especialmente a definição de limites e a possibilidade de manter algum controle sobre o ritmo e a quantidade de informações recebidas. Os pesquisadores observam que estabelecer limites pode ajudar a evitar o burnout e que expectativas consideradas injustas ou incompatíveis com as capacidades individuais podem contribuir para a perda de resiliência. Springer Nature

Esse ponto merece atenção porque existe uma diferença significativa entre desenvolver capacidade de enfrentamento e aumentar indefinidamente a quantidade de coisas que uma pessoa consegue suportar.

Se alguém está permanentemente exposto a uma situação que excede sua capacidade de funcionamento, a solução não necessariamente consiste em treiná-lo para suportar ainda mais exposição. Em determinadas circunstâncias, a estratégia mais adequada pode ser reduzir a exposição, modificar o ambiente, reorganizar a rotina, estabelecer limites ou negociar adaptações.

O estudo não apresenta essas medidas como uma fórmula universal. Pelo contrário, os próprios participantes ressaltaram que não existe uma solução única que funcione para todas as pessoas autistas. A heterogeneidade do espectro exige que estratégias sejam consideradas a partir das necessidades e características de cada indivíduo. Springer Nature

Essa conclusão é importante porque impede que a ideia de resiliência seja convertida em mais uma norma de comportamento: o autista resiliente não é necessariamente aquele que consegue permanecer indefinidamente em ambientes adversos sem demonstrar sofrimento. Em muitos casos, uma resposta resiliente pode consistir precisamente em reconhecer que determinado limite foi atingido e agir antes que a situação produza consequências mais graves.

A importância da previsibilidade

Outro elemento destacado pelos participantes foi a manutenção de rotinas. Para algumas pessoas autistas, a previsibilidade pode reduzir a carga associada à necessidade permanente de antecipar o que irá acontecer. No estudo, participantes relacionaram a consistência da rotina à manutenção da resiliência, especialmente porque situações desconhecidas poderiam desencadear ansiedade. Springer Nature

Isso não significa que toda pessoa autista precise viver sob uma rotina rígida ou que qualquer mudança seja necessariamente prejudicial. O que a pesquisa demonstra é que previsibilidade pode funcionar como um recurso importante para determinadas pessoas, particularmente quando a incerteza representa uma fonte significativa de estresse.

Uma rotina, nesse sentido, não precisa ser compreendida como uma prisão. Ela também pode funcionar como uma espécie de infraestrutura cognitiva que reduz a quantidade de decisões e antecipações necessárias ao longo do dia. Saber aproximadamente o que acontecerá, quando determinadas atividades ocorrerão e quais são as expectativas de uma situação pode liberar recursos que, em um ambiente imprevisível, seriam consumidos pela tentativa de antecipar acontecimentos.

Os participantes também mencionaram atividades de lazer e interesses pessoais como recursos possíveis. As estratégias variaram consideravelmente: alguns relataram atividades físicas, enquanto outros mencionaram sono, conversas com amigos e videogames. A diversidade dessas respostas reforça novamente a ideia de que não existe uma única maneira correta de recuperar energia ou reduzir estresse. Springer Nature

Autodefesa: quando a pessoa precisa conseguir explicar o que necessita

Outro aspecto recorrente foi a autodefesa, ou self-advocacy. Os participantes consideraram importante que pessoas autistas desenvolvam condições para expressar suas necessidades, participar das decisões que dizem respeito às suas próprias vidas e defender limites quando determinadas situações se tornam prejudiciais. Springer Nature

A autodefesa, porém, não deveria ser confundida com a obrigação de uma pessoa autista justificar continuamente sua existência ou convencer os outros de que determinada necessidade é legítima. O próprio estudo apresenta uma contradição importante: embora a capacidade de defender-se possa favorecer a resiliência, a necessidade constante de autodefesa também pode ser consequência de falhas nos serviços e no ambiente social.

Os pesquisadores destacam expressamente que exigir que a pessoa utilize estratégias individuais para lidar com todas as dificuldades pode aumentar ainda mais sua carga, especialmente quando o problema está relacionado à maneira como a sociedade organiza seus serviços e expectativas. Springer Nature

Essa observação muda significativamente o significado da palavra “resiliência”.

Quando o ambiente também precisa mudar

Talvez esta seja a contribuição conceitual mais importante do estudo. Os autores afirmam que as estratégias individuais não podem ser utilizadas como única resposta às dificuldades experimentadas por pessoas autistas. A literatura sobre modelos socioecológicos de resiliência e sobre o modelo social da deficiência ajuda a compreender por quê: as condições sociais e ambientais participam da maneira como uma pessoa enfrenta uma adversidade e podem tanto aumentar quanto diminuir a carga que recai sobre ela. Springer Nature

Imagine, por exemplo, duas pessoas com características individuais semelhantes enfrentando uma situação profissional semelhante. Uma delas trabalha em um ambiente previsível, recebe instruções claras, pode solicitar adaptações, dispõe de uma chefia que aceita diferentes formas de comunicação e tem alguma possibilidade de controlar o ritmo de determinadas tarefas. A outra trabalha em um ambiente no qual as instruções são predominantemente implícitas, mudanças são comunicadas de maneira abrupta, pedidos de adaptação são interpretados como privilégios e a pessoa precisa constantemente esconder sinais de dificuldade para não ser considerada pouco competente.

Seria adequado afirmar que a segunda pessoa simplesmente precisa desenvolver mais resiliência?

O estudo sugere cautela diante dessa conclusão. A própria pesquisa ressalta que o contexto social e os serviços disponíveis participam do processo de resiliência e que as estratégias individuais, quando utilizadas isoladamente, podem colocar uma pressão adicional sobre as pessoas autistas. Springer Nature

Isso é particularmente relevante para adultos, porque boa parte das dificuldades enfrentadas nessa fase da vida acontece justamente em ambientes que não foram desenhados considerando diferenças neurológicas: trabalho, universidade, serviços de saúde, instituições públicas, relações profissionais e situações burocráticas.

Comunidade também é um recurso de resiliência

O segundo grande eixo identificado pela pesquisa envolve os recursos comunitários. Os participantes mencionaram atividades recreativas, grupos sociais, serviços especializados, familiares, amigos e redes de pares como elementos capazes de contribuir para o desenvolvimento da resiliência. Springer Nature

Os grupos comunitários apareceram não apenas como espaços de convivência, mas também como ambientes nos quais algumas pessoas poderiam experimentar determinadas situações de maneira mais segura e previsível. Um participante descreveu a possibilidade de praticar conversas e situações sociais em um ambiente conhecido, enquanto outros relatos enfatizaram a importância de compartilhar experiências com pessoas que também compreendem o que significa ser autista. Springer Nature

Esse aspecto é especialmente relevante porque a ideia de que a pessoa autista deve simplesmente “se socializar mais” ignora uma variável fundamental: que tipo de ambiente social está sendo oferecido?

Um ambiente hostil, imprevisível ou excessivamente exigente pode aumentar o estresse. Um ambiente estruturado, acolhedor e relativamente previsível pode oferecer uma oportunidade de aprendizagem, pertencimento e desenvolvimento de confiança.

A diferença entre essas duas experiências não está necessariamente na pessoa. Está também no contexto.

O papel dos profissionais

Os participantes também atribuíram importância aos profissionais e aos serviços de apoio. Um dos elementos considerados positivos foi a possibilidade de contar com alguém de fora da situação para ajudar a identificar obstáculos que talvez não fossem imediatamente percebidos pela própria pessoa ou por sua família. Springer Nature

Entretanto, o estudo enfatiza que a relação com o profissional precisa ser construída como uma parceria. Os participantes valorizaram profissionais capazes de modificar sua atuação de acordo com as necessidades e objetivos da pessoa autista, em vez de simplesmente aplicar um modelo rígido de intervenção.

Esse resultado é particularmente significativo quando se considera a saúde mental. Um participante relatou utilizar aconselhamento psicológico para manter suas capacidades durante períodos de crise e também para desenvolver maior independência. O objetivo do suporte, nesse caso, não era substituir a autonomia da pessoa, mas ajudá-la a ampliar sua capacidade de conduzir a própria vida. Springer Nature

Resiliência e saúde mental não podem ser separadas

O estudo também chama atenção para o impacto das condições concomitantes de saúde. Os participantes mencionaram que dificuldades relacionadas à saúde mental ou física podem reduzir a capacidade de utilizar estratégias de enfrentamento e participar de programas de apoio. Springer Nature

Essa observação é importante porque uma pessoa não enfrenta todas as situações com a mesma quantidade de recursos disponíveis. A capacidade de lidar com determinada adversidade pode ser bastante diferente quando alguém está descansado e emocionalmente estável em comparação com um período marcado por ansiedade intensa, depressão, privação de sono, dor, problemas físicos ou outras condições que consumam recursos cognitivos e emocionais.

Por isso, falar em resiliência sem considerar saúde mental pode produzir uma interpretação excessivamente abstrata. Em determinadas circunstâncias, antes de desenvolver novas estratégias de enfrentamento, pode ser necessário reduzir uma crise, tratar uma condição concomitante ou restabelecer condições mínimas de segurança e funcionamento.

E o camuflamento social?

A questão se torna ainda mais complexa quando consideramos o camuflamento social. Pesquisas anteriores investigaram estratégias utilizadas por pessoas autistas para reduzir a visibilidade de suas características autísticas em situações sociais, incluindo supressão de comportamentos, utilização consciente de comportamentos sociais aprendidos e desenvolvimento de roteiros para determinadas interações.

Em um estudo publicado na Molecular Autism, Hull e colaboradores encontraram associação entre maior camuflagem social e maiores sintomas de ansiedade generalizada, depressão e ansiedade social em adultos autistas, embora os próprios pesquisadores ressaltem que os efeitos encontrados foram pequenos depois de considerados outros fatores, como características autísticas e idade. Springer Nature

Isso não permite concluir que toda forma de adaptação social seja prejudicial ou que o camuflamento seja uma explicação isolada para problemas de saúde mental. A questão é mais complexa. Estratégias utilizadas para navegar pelo mundo social podem ser úteis em determinadas circunstâncias e, ao mesmo tempo, tornar-se custosas quando exigem monitoramento permanente do próprio comportamento.

Essa distinção é importante para a discussão sobre resiliência. Se uma pessoa consegue permanecer em determinado ambiente somente porque utiliza constantemente estratégias de compensação que consomem grande quantidade de energia, o fato de ela “conseguir funcionar” não revela necessariamente que o ambiente seja adequado ou sustentável.

A idade também modifica a experiência

Os pesquisadores identificaram ainda a idade como uma característica relevante. Os participantes sugeriram que a capacidade de reconhecer situações que ameaçam a própria resiliência pode se desenvolver ao longo do tempo e que diferentes momentos da vida apresentam diferentes desafios. Springer Nature

Essa observação é particularmente interessante quando pensamos em adultos diagnosticados tardiamente. Uma pessoa pode chegar à idade adulta tendo desenvolvido inúmeras estratégias para funcionar socialmente sem necessariamente compreender por que determinadas situações são tão desgastantes. Pode ter aprendido a responder às expectativas externas antes de compreender suas próprias necessidades.

Nesse contexto, desenvolver resiliência não significa simplesmente acrescentar mais técnicas de adaptação. Pode significar também revisar estratégias antigas e perguntar se elas continuam sendo sustentáveis.

Uma estratégia que ajudou alguém a sobreviver a determinado período da vida pode não ser a mesma que permitirá viver bem em uma fase posterior.

Não existe uma receita universal

Um dos cuidados mais importantes ao interpretar essa pesquisa é não transformar seus resultados em um manual universal.

Trata-se de um estudo qualitativo com uma amostra pequena. Os 13 participantes autistas eram adultos verbalmente comunicativos e com baixo nível de necessidade de suporte; portanto, as experiências de pessoas não falantes ou com maiores necessidades de apoio não foram contempladas adequadamente. Os próprios autores afirmam que isso limita a possibilidade de transferir os resultados para toda a diversidade do espectro. Springer Nature

Além disso, os participantes eram provenientes do Canadá e todos precisavam conseguir comunicar-se verbalmente em inglês. Os próprios pesquisadores indicam que estudos futuros deveriam incorporar informações mais abrangentes sobre saúde mental, atividades cotidianas, serviços utilizados e características demográficas, justamente porque as estratégias de resiliência são dependentes do contexto. Springer Nature

Portanto, o estudo não demonstra que existe um conjunto comprovado de técnicas capazes de tornar qualquer pessoa autista mais resiliente. Ele oferece algo diferente e talvez mais interessante: um mapa inicial das condições que pessoas autistas e seus familiares consideram relevantes para enfrentar adversidades.

O que a pesquisa muda na maneira de pensar a resiliência?

A principal consequência talvez seja deslocar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “como podemos ensinar uma pessoa autista a lidar melhor com as dificuldades?”, é necessário perguntar também “que condições tornam possível que essa pessoa lide melhor com as dificuldades?”

As duas perguntas não são equivalentes.

A primeira concentra a responsabilidade sobre o indivíduo. A segunda reconhece que existe uma relação entre indivíduo, ambiente, relações, serviços, saúde e circunstâncias concretas.

O próprio artigo conclui que a utilidade das estratégias identificadas é dependente do contexto, da preparação da pessoa e dos serviços disponíveis. Os autores também afirmam que políticas públicas e profissionais precisam não apenas criar programas de apoio, mas facilitar o acesso a esses recursos, uma vez que barreiras sistêmicas, como falta de financiamento e longas filas, podem impedir que as pessoas efetivamente utilizem os serviços disponíveis. Springer Nature

Essa conclusão é particularmente importante para adultos autistas porque muitas das dificuldades dessa fase da vida não podem ser resolvidas exclusivamente por meio de habilidades individuais. A qualidade do trabalho, a previsibilidade das relações, a acessibilidade dos serviços, a possibilidade de solicitar adaptações e a existência de uma rede de apoio podem modificar substancialmente a quantidade de energia necessária para realizar as mesmas atividades.

Resiliência não deveria ser sinônimo de suportar mais

Talvez seja justamente aqui que a discussão sobre resiliência encontre uma dimensão ética.

Uma pessoa pode desenvolver estratégias para lidar com um ambiente difícil, mas isso não significa que o ambiente deixe de ser difícil. Uma pessoa pode aprender a esconder sinais de sobrecarga, mas isso não significa que a sobrecarga tenha desaparecido. Pode aprender a antecipar todas as possibilidades de uma situação, mas isso não significa que a imprevisibilidade deixou de consumir energia.

Resiliência, portanto, não deveria ser utilizada como justificativa para manter uma pessoa permanentemente submetida a condições que poderiam ser modificadas.

O estudo de Ghanouni e colaboradores não propõe que pessoas autistas simplesmente suportem mais. Ao contrário, sua conclusão aponta para uma combinação de estratégias individuais, apoio comunitário e consideração das características e circunstâncias particulares de cada pessoa. Mais importante ainda, os autores alertam explicitamente para o risco de concentrar toda a responsabilidade sobre o indivíduo e defendem que a sociedade também precisa ser educada e preparada para responder às necessidades das pessoas autistas. Springer Nature

Essa talvez seja a leitura mais produtiva do conceito de resiliência no contexto do autismo: não se trata de construir uma pessoa capaz de suportar qualquer ambiente, mas de aumentar as condições para que ela consiga enfrentar as dificuldades da vida sem precisar pagar por isso com uma quantidade insustentável de sofrimento, exaustão ou perda de autonomia.

Em alguns momentos, isso significará desenvolver uma estratégia pessoal. Em outros, estabelecer um limite. Em outros ainda, procurar apoio profissional, reorganizar uma rotina, recorrer a uma rede comunitária ou solicitar uma adaptação. E haverá situações em que a resposta mais adequada não estará em mudar a pessoa, mas em modificar o ambiente que está produzindo uma parte desnecessária da dificuldade.

Essa perspectiva não diminui a autonomia. Pelo contrário: reconhece que autonomia não significa fazer tudo sozinho. Significa ter condições reais de participar das decisões sobre a própria vida, compreender suas necessidades, escolher estratégias que façam sentido e contar com os recursos necessários para colocá-las em prática.

É nesse sentido que a resiliência pode deixar de ser uma exigência para “aguentar mais” e passar a ser compreendida como uma construção mais ampla, na qual a pessoa, suas relações e o ambiente participam conjuntamente da possibilidade de atravessar períodos difíceis sem que cada adversidade precise se transformar em uma crise.

O que este estudo realmente permite concluir

A pesquisa não permite afirmar que existe uma fórmula universal de resiliência para pessoas autistas, nem que as estratégias identificadas funcionarão da mesma maneira para todos. Seu valor está justamente em mostrar a complexidade do fenômeno e em trazer para o centro da discussão as perspectivas de pessoas autistas e familiares.

Os principais elementos identificados foram:

- estratégias individuais de regulação e enfrentamento;

- estabelecimento de limites e prevenção do burnout;

- manutenção de rotinas e previsibilidade;

- autodefesa e participação nas próprias decisões;

- atividades de lazer e interesses pessoais;

- apoio de familiares, amigos e pares;

- serviços profissionais capazes de adaptar sua atuação;

- recursos e atividades comunitárias;

- condições de saúde física e mental;

- idade e características individuais;

- e, sobretudo, as condições do ambiente e dos serviços disponíveis.

A pesquisa também deixa claro que esses elementos precisam ser compreendidos dentro do contexto de cada pessoa, e não transformados em uma lista universal de obrigações.

Para pensar

A pergunta “como posso me tornar mais resiliente?” pode ser importante. Mas talvez ela não seja suficiente.

Para uma pessoa autista, também pode ser necessário perguntar: quais situações estão consumindo meus recursos de maneira desproporcional? Quais delas podem ser antecipadas? Quais limites preciso reconhecer? Que tipo de apoio está disponível? Que adaptações poderiam reduzir uma dificuldade desnecessária? E quais problemas que parecem ser individuais são, na realidade, produzidos ou agravados pelo ambiente?

Talvez uma compreensão mais madura da resiliência comece justamente quando deixamos de confundi-la com resistência ilimitada.

Fonte principal

Ghanouni, P.; Raphael, R.; Seaker, L.; Casey, A. (2024). How to build resiliency in autistic individuals: an implication to advance mental health. BMC Psychology, 12, 420. DOI: 10.1186/s40359-024-01916-1. O artigo é de acesso aberto e está disponível sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International. Springer Nature

Ler o artigo completo na Springer Nature

Consultar o registro na PubMed

Outras referências

Hull, L. et al. (2021). Is social camouflaging associated with anxiety and depression in autistic adults? Molecular Autism. O estudo encontrou associação entre camuflagem social e sintomas de ansiedade e depressão em adultos autistas, embora com efeitos relativamente pequenos após o controle de outras variáveis. Springer Nature

Ler o estudo sobre camuflagem social

Aviso

Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional. A pesquisa discutida neste artigo possui limitações de tamanho e composição da amostra e não deve ser interpretada como uma fórmula universal de resiliência para todas as pessoas autistas. Springer Nature

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Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento profissional.

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