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Memórias póstumas de um autista adulto

Há bens que vêm pra males

memórias póstumas de um autista adulto

Memória #001
Figura adulta diante de uma paisagem desértica que se abre para uma paisagem interior, simbolizando uma viagem de introspecção.

Camus estava certo. A vida é um absurdo. Porém Sísifo tem uma escolha, a sua única forma de livre arbítrio: no momento em que ele decide levar novamente a pedra ao topo do monte, por mais absurda que seja sua pena, é sua escolha fazer isso. Se esperam que ele desista, já que a pedra voltará a rolar montanha abaixo e tudo recomeçará, Sísifo prova que se a própria condenação é um absurdo, ele é capaz de superá-la, decidindo cumprir sua pena enquanto existir, quantas vezes for necessário. Se a pena por si mesma existe para fazê-lo desistir, sua resistência está em cumpri-la e não abaixar sua cabeça. Assim somos todos nós neste mundo absurdo, nesta vida absurda, em que cada pessoa vê a outra apenas sob o reflexo de dentro de sua própria bolha de vidro, e todos fingem se entender, sem sequer entender a si mesmos.

Esta é a primeira postagem deste blog. Se será a única ou virão milhares em seguida, só o Destino saberá. A própria tarefa de escrever um blog em uma era em que quase todas as pessoas somente leem textos de 150 caracteres, em um mundo visual e atraído por imagens e vídeos feitos por inteligência artificial, já é por si própria uma tarefa absurda. Mas, em definitivo, hoje me rendo, mesmo sabendo que pode não haver um leitor sequer destas minhas memórias, mesmo depois que eu me for. Não me importo. Registrar neste mundo, em palavras, aquilo que vi e senti, já é para mim tão suficiente prova de resistência quanto é a decisão de Sísifo de recomeçar a jornada morro acima, mesmo sabendo que ao final terá que fazer tudo de novo. Afinal, isso é a vida. O absurdo da vida.

Chamo de Memórias de um Autista, pois se tratam de relatos de minhas viagens interiores. Como viajei, pouco importa. O importante foi o que lá encontrei, e o que eu vivi no caminho. E eis-me aqui registrando cada passo de cada trecho da viagem. Onde ela irá chegar, não sei. Afinal, sou um peregrino (não me autodenominei, o destino assim o quis, após tantas ‘sincronicidades’ (vide Carl Jung) com esse termo em minha vida, o próprio livro ‘O peregrino’ a uma recente carta de tarot que também me denominou assim. Assumo assim esse meu destino sem conhecer seu final, pois o que importa é o caminho, e aceitarmos nossa ‘pena’.

Esta minha primeira viagem registrada (não é a primeira, mas sim a primeira que assim o registro) foi às profundezas do meu inconsciente, há algumas horas atrás. Muitas horas durante a madrugada analisando memórias, sentimentos, refletindo, conectando percepções. E mais sendo conduzido do que conduzindo. Passei pelo mesmo ponto de onde havia deixado a última viagem.... um lugar vazio, sem esperança, sem placas indicando o próximo passo, apenas um lugar de um breve descanso, e que apesar de acreditar que havia mais, deixei para trás e retornei na última viagem há duas semanas. Ontem, surpreendentemente, após retornar a este lugar, fui mais fundo, mais adiante, e pude perceber que há muito mais entre o céu e a terra que nossa vã racionalidade pode querer presumir.

Por que faço estas viagens? Talvez a busca da verdade. Mas não acredito mais que ela seja importante. Afinal, a verdade é o que queremos que ela seja, não um fim em si mesma ou um fato inquestionável e certo. Um significado contra o absurdo da vida? Também não busco mais. Como disse anteriormente, a vida é um absurdo. Somos na nossa essência um fluxo de energia, e essa energia se move pelo sentimento, pelas emoções (não pretendo caracterizar uma diferente da outra, pois creio que falharei nessa tarefa.... pelo momento, considero as duas a mesma coisa, o mesmo motor que nos move e a única coisa que realmente marca nossa essência nessa vida). Busco (talvez, e coloco esse talvez com a dúvida que marca um mínimo de inteligência de alguém que duvida de tudo e todos, principalmente de si mesmo), é saber qual exatamente é minha tarefa, e executá-la. Afinal, já ficou claro pra mim que no fim, temos um papel aqui, seja o absurdo que for, assim como Sísifo e sua pedra. Estou vivo, penso, e isso já é suficiente para ter o arbítrio de cumprir o que aqui vim fazer. No fim, como nas grandes histórias ancestrais, acredito que a resposta desta busca estará no começo da jornada, onde tudo começou, mas a esta conclusão só chegaremos (e eu me incluo) quando ela terminar. Então, que assim seja, Maktub.

Como autista, não me vejo menor ou menos capaz do que qualquer pessoa. Também busco não romantizar a questão, visto as limitações sociais que o diagnóstico me infringe. Porém vejo que não tomar parte da falsidade e da mentira social que muitos tomam parte (e que acaba nos sendo imposta também) é mais um benefício que um mal. Como disse, a vida é um absurdo por si mesma, porém absurdo maior é continuar a acreditar em mentiras com medo de encarar a verdade. A frase “Há males que vêm para o bem” está incompleta, pois há também bens que vêm para males. Não há mentira do bem (e aí incluo as omissões que deveriam ser ditas). Nas maiores profundezas da minha alma, na última peregrinação pelo meu interior, passando pela terra árida que tinha atingido da última vez, e agora chegando no terreno rico de memórias muito profundas, cheias de emoção, cores, personagens... podemos ver através das histórias analisadas agora muitos anos depois, o quanto nossa sinceridade (ou talvez falta de capacidade de fingir o que não se é) nos torna suscetíveis das mentiras, omissões e fingimentos alheios. Praticamente todos a nossa volta fingem. Emulam, pois muitas vezes também não querem ser quem realmente são. Mas nesta tarefa teatral, acabam também criando um personagem para quem está a sua volta, e se satisfaz vestindo-os com os trajes deste personagem, para que se encaixe na história que conta para si mesmo, muitas vezes por não querer enfrentar a verdade interna das suas próprias profundezas, que não quer visitar, não quer conhecer. Anos levei para finalmente perceber, não desta última viagem, mas já há algumas anteriores, apenas tomei parte da história criada com o personagem criado, não para evitar conflitos, mas como o ator que finalmente conhece o roteiro da peça em que está atuando, e sabe que pode atuar livremente assim que decidir. E não o fará para ‘estragar’ a história alheia, mas sim para contar uma história verdadeira quando for o momento, para sentir ser quem realmente é, e mostrar que desde o começo, sabia que grande parte da história não era real, era apenas uma caricatura criada e que os demais acreditavam que estavam lhe impondo desde o começo.

A verdade liberta, mas poucos querem ser libertados. A mentira preserva. Preserva quem mente de confrontar e mudar. Como disse, não existe mentira do bem. Mentir, fingir, omitir nunca fará o bem, no final. Criar falsas verdades, acaba-se criando males. O verdadeiro, no fundo, é o sentimento verdadeiro. Que mesmo machucando, protege e mostra respeito, pureza, permite que se construa em terreno firme. A mentira nunca constrói nada. Falo aqui de várias coisas, dentre elas o ‘masking’.... Jung chamaria de Persona, mas no caso do autismo, seria quase que uma segunda pele que ao ser retirada, não tem algo muito bonito de se ver embaixo, mas é a verdade. É neste momento, quando se busca sair do masking, e assumir sua existência enquanto pessoa neurodivergente, que muitos se afastam, ou aumentam ainda mais suas mentiras. Para proteger? Não. Há uma crença falsa numa certa ‘inocência’ do autista, como se não fôssemos capazes de perceber que algo não está certo, que o discurso não bate, que os atos são diferentes das palavras. Mas como autista adulto, já me vejo velho demais para contestar as pessoas de suas próprias histórias reais e irreais. Também não as contesto de seu afastamento, já que pensam que não somos capazes de percebê-lo. Um primeiro passo após ser você mesmo, e abandonar o masking (o adaptar-se à imagem que os outros querem que você tenha) e não fingir não ser um autista, é buscar a verdade dentro de si, e não nos outros. A verdade está na profundeza da sua alma, quando você passa por essa parte inerte da alma onde nada parece crescer.... se lá voltar, persistente, encontrará algo mais, que irá ajudá-lo a continuar o caminho. Talvez ainda sem rumo definitivo, mas até a próxima parada, pelo menos. Sem raiva ou amargura das demais pessoas. Elas mentem porque, usando a desculpa de te ‘proteger’, talvez estejam fugindo de si mesmas. E você não está. Sendo você sincero, é o que importa, independente de não serem com você. Só não permita que a mentira alheia limite seus caminhos, te fazendo acreditar em oásis no meio do deserto que nunca existiram. E nunca vão existir. A verdadeira paz, e o verdadeiro amor, está dentro de você, e você pode nutrir-se dele, mesmo que na superfície esteja o mais árido deserto.

Como Carl Jung disse, nossa alma, nossa mente, é autorregulatória. Ela mesma se cura, se não chegar em um nível em que a ‘febre’ esteja tão alta que afete o corpo também. A cura está dentro de nós. Claro que não podemos ficar passivamente esperando que ela venha. Minha peregrinação é para isso, não que ache que encontrarei a cura, mas como Sísifo carregando a pedra dia após dia, e voltando a carregar... volto nas profundezas da minha alma quando posso, e na escuridão da madrugada, revejo memórias, sonhos, desejos, todos já enterrados há muito tempo. Assim como um cemitério, não vou lá para chorar e velar os falecidos. Vou para honrá-los. Os que lá estão, por nós esperam. Perceber que há uma sequência, perceber as ‘sincronicidades’ (muito mais que meras coincidências) é perceber que há um sentido oculto em tudo isso. Ir além dos sete véus da deusa ‘Maya’, ir além das ilusões, das mentiras, é decidir rolar a pedra de Sísifo novamente morro acima. É nosso ato ‘absurdo’, dentro de uma vida ‘absurda’, numa lógica ‘absurda’. Não espero encontrar sentido. Espero encontrar a verdade, e junto com ela, sentimentos verdadeiros, o que parece faltar no mundo aqui em cima.

Até a próxima viagem. Sozinho ou acompanhado. Mas continuando, até quando: não sei. Mas por hora, é suficiente.

— Resiliente

Até a próxima viagem.

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